Vivendo a bordo - Entrevista com o casal Avoante

Publicado por Elson Fernandes em 01/12/2015 às 07h56

Sempre que conto a alguém sobre o casal Avoante, os amigos Nelson e Lúcia, que mora no veleiro Avoante há 10 anos, me fazem uma série de perguntas e afirmações. Uns, ficam admirados e curiosos, querendo saber mais sobre a história do casal, o que os levou a morar num veleiro, o que fazem para sobreviver, quais os planos para o futuro. Outros, já afirmam logo: são malucos! Como pode ter tanto desprendimento?!

Então, decidi juntar algumas perguntas para fazer aos amigos Nelson e Lúcia, para conhecermos um pouco mais sobre o casal Avoante.

 

Há quanto tempo estão morando no Avoante?

Caro Elson Fernandes, primeiramente gostaríamos de dizer que é uma alegria e um prazer conceder-lhe essa entrevista. Em janeiro de 2016 completaremos 11 anos a bordo do nosso querido veleirinho que sempre nos acolheu com muito carinho e conforto.

O que os motivou a morar no barco?

Na verdade não sabemos dizer se existiu um motivo, um sonho ou simplesmente a vontade de ver e viver novos horizontes. Lemos vários livros, conversamos com inúmeros velejadores de cruzeiro, estudamos os manuais de navegação, porém, nada nos levava ao que buscávamos. As respostam não eram claras. Que mundo era aquele que entancava a alma de meia dúzia de felizes moradores do mar? Precisávamos viver tudo aquilo para ter as respostas e acho que o desafio foi o grande motivo.

O que foi preciso deixar para trás?

Tudo aquilo que não cabia no barco: A empresa, a pressa, as teorias, a terra firme, a vida louca das grandes cidades, o medo, as certezas e principalmente as amarras urbanas.

Qual era a atividade profissional de vocês antes de morar no Avoante?

Trabalhávamos com panificação e supermercado.

Vocês tiveram que abrir mão de muita coisa para morar num barco? Foi difícil de se adaptar?

Acho que já respondemos a primeira parte da pergunta anteriormente, contudo, podemos complementar e dizer que: Abrir mão do convívio diário da família e dos amigos foi à decisão mais difícil. Quanto à adaptação, não tivemos nenhum problema. Até parecia que já morávamos a bordo há muitos anos.

Na vida de vocês existe hoje alguma rotina?

Gosto de dizer que nossa vida é um diário sem rotina. Não pode existir rotina em um ambiente que nunca para de balançar, em que a paisagem muda a cada segundo e onde se vive em total integração e sob os efeitos da natureza.

Do que vocês precisam hoje para viver a bordo?

Nada além do que paz, saúde, alegria e bons amigos. Alias, o mar é um grande celeiro de boas amizades.

É verdade que nunca tiveram um fogão a bordo e nem geladeira? (ops, aqui errei na pergunta, era só geladeira...)

Fogão? Temos sim e a cozinha do Avoante é famosa, simplesmente maravilhosa e eu sou suspeito de falar. Quanto à geladeira, não temos mesmo e nunca nos fez falta.

Como fazem a conservação e estoque de alimentos?

Na verdade não precisa estocar alimentos, porque hoje em dia encontramos tudo em todos os lugares. Temos uma pequena despensa com o básico e em quantidades que se renovam com no máximo 15 dias. Carne, frango e outros, compramos de acordo com o desejo diário. Frutas e verduras compramos sempre fresquinhos. Quando vamos fazer grandes viagens abastecemos com folga para o dobro do tempo planejado.

E a questão do uso e abastecimento de água doce?

Em um barco precisamos estar sempre focados na economia. Água doce é um bem valioso a bordo e precisamos usar com moderação. Quando não estamos atracados em um píer e sim ancorado ao largo, sempre desembarcamos com um vasilhame para complementar a água. Quando em um píer a coisa fica mais fácil, mas precisamos lembrar que muitas marinas e clubes cobram a parte pela água.

Como é morar num veleiro de 33 pés? E quando a capitã está brava, pra onde correr(rsrs)?

Morar em um veleiro de 33 pés é igual a morar em um veleiro maior, o que muda é que o trabalho num 33 é menor do que em um de 50. A questão é de adaptação. Existe muita fantasia e romantismo quando se fala em morar a bordo de um veleiro. Muitos desistem antes de embarcar, ou poucos meses após ter embarcado. Outros entopem o barco com uma enorme parafernália de eletrodomésticos, na tentativa de driblar o bom senso, e esquecem os ideais de simplicidade que os levaram a se encantar com o mar. A vida a bordo só requer prioridade e nada mais. Quanto à fúria capitã, aqui em nós tem isso não. Mas já vi muita relação desfeita por motivos banais ou mesmo por falta de uma palavra carinhosa. A desculpa da individualidade é a prova maior da falta de cumplicidade e companheirismo que é base de qualquer relação.

Hoje em dia quais suas opções de fontes de renda?

Fazemos translado de embarcações, damos curso de vela de cruzeiro, charter, trabalhos artesanais – que era hobby de Lucia e virou fonte de renda.

Vocês encaram essa forma de vida como umas longas férias?

Não! Encaramos como uma nova forma de viver a vida.

Pensam em um dia deixar de viver a bordo?

Sim, porque a idade é um limitador para tudo e em um barco a saúde e a forma física é fundamental.

Muitos casais já se iniciaram no mundo náutico a bordo do Avoante. Qual a mensagem que costumam transmitir para esses casais?

Muitos, e alguns já adquiriram seus veleiros e navegam por aí. O nosso curso de vela de cruzeiro foi montado para desmistificar a vida a bordo de um veleiro e mostrar tudo sem segredos. Para isso fazemos questão que o aluno fique a bordo durante os quatro dias de duração. Não mudamos em nada a nossa rotina a bordo e deixamos o aluno muito à vontade para que tire suas conclusões. Alguns desistiram desse sonho e desembarcaram dando graças por termos proporcionado a eles uma visão tão clara e objetiva. Esse é o propósito do curso, que as pessoas não vejam o mundo de quem vive a bordo apenas pela lente do romantismo e da poesia. Um veleiro é um bem que pode trazer alegrias e tristezas profundas, além de se tornar um fardo pesado demais quando não é utilizado. Adoramos viver essa vida de sonhos em que muitos tentam e não conseguem, por isso, em nosso curso, tentamos desmitificar algumas lendas e “verdades”.

 Nelson é autor do livro Diário do Avoante, que é também o nome de seu site. Para mais informações sobre o livro, cursos oferecidos a bordo do Avoante, Charter, visitem o site DIÁRIO DO AVOANTE

Agradeço muito ao casal Avoante por essa modesta entrevista, pois não sou jornalista, somente um admirador das coisas do Mar.

Mucuripe.

Categoria: viver a bordo

Comentários

Hélio Mattos em 13/12/2015 03:43:27
Muito boa a entrevista, sim Sr.
E mais uma vez fico com aquela sensação de estar perdendo tempo em não ir logo para este tipo de vida, romantizada ou não.
Antônio Carpes em 01/12/2015 21:23:23
Grande Mucuripe, valeu a entrevista,sempre ajuda a desmistificar a vida a bordo.
Parabéns!
ELIANE em 01/12/2015 17:19:44
Somos fã deste casal! Todas as vezes que fazemos uma visita, somos bem recebidos e as guloseimas de Lúcia, junto com sua alegria, que nós contagiam.
Carlos Mesquita Lopes junior em 01/12/2015 15:04:39
Primo tenho muito orgulho de vocês.
Abraços
Flavio Alcides em 01/12/2015 13:53:16
Parabéns aos amigos, Nelson e Mucuripe, por terem com tanta simplicidade, resumido a história de uma vida de amor, amizade e tantas alegrias onde os poucos momentos de infortúnio se dissipa como nevoeiro.
Forte abraço.
Paulo Guedes em 01/12/2015 13:36:10
Eta Casal porreta que faz amizades em todo canto por onde passa , levando sempre alegria e espalhando ensinamentos! Grande abraço

Enviar comentário

voltar para Blog Velas do Mucuripe

left show tsN fwB|left tsN fwB|left show fwB|bnull|||news login fwB tsN fwR tsY b01 c05 bsd|normalcase fsN fwR b01 c05 bsd|normalcase c05 b01 bsd|login news normalcase fwR b01 c05 bsd|tsN normalcase fwR b01 c05 bsd|b01 normalcase c05 bsd|content-inner||