Desafio África, 38 dias no Atlântico Sul. Bate-papo com o Juca

Publicado em 22/02/2018 às 10h31

Grande Juca, como é bom conversar com você, nobre Capitão! E que viagem, heim?!

Então, meu amigo, conte aí como é que foi essa Aventura!

1. Você foi o mentor do Desafio África, certo? como surgiu essa idéia?
 
É verdade. Esse era um sonho meu de infância. Ainda menino, em Santos, eu via os navios sumindo no horizonte e me perguntava para onde estariam indo. A Africa era meu destino preferido. Naquele tempo eu pensava que jamais iria passar da arrebentação. Mas no dia 05/01/2018, eu estava indo para outro continente, a bordo de um veleiro. O mais legal da vela é isso: você pode fazer o que os caras dos livros fazem. Basta planejamento, organização e um pouquinho de tempo.

2. Você já pensou de início em propor ao Tio de irem no Soneca? cogitou de ir no Malagô, por exemplo?
 
Esse desafio só aconteceu em razão de eu ter encontrado o Tio, em 2015 e com ele firmado uma parceria vitoriosa. O Soneca é um barco rústico e não tem luxos, é verdade. Ainda assim é um veleiro extremamente forte, bastante funcional e está muito bem montado. Era o barco certo para essa travessia. De Malagô não seria impossível, mas eu precisaria fazer muitas adaptações. Melhor deixá-lo como o clássico que é. Outro fator determinante para nosso sucesso, não posso deixar de mencionar, foi a adesão do Alan Trimboli ao projeto. O bom humor dele foi o fiel da balança nessa travessia, assim como sua habilidade em trimar as velas.

3. Em relação aos ventos que teriam durante a travessia, conforme o que era previsto no planejamento baseado nas cartas piloto, qual a sua percepção do que realmente encontraram no caminho?
 
Quem melhor definiu nossa situação foi o velejador Philippe Gouffon, em resposta a um e-mail em que pedíamos informações (ele já fez essa travessia em 2014): a coisa estava uma zona completa. Os modelos não "bateram". A travessia começou de verdade quando desistimos de procurar os ventos dos modelos e começamos a lidar com aquilo que o mar nos dava. Nós nos adaptamos às adversidades.

4. E quanto ao estado do Mar ao longo da travessia? Houve dias tranquilos, ou sempre estavam no extremo de calmaria e mar picado?
 
O padrão era três a cinco dias de ventos de NE, N e NW, quando fazíamos os maiores progressos rumo a E. Depois era um dia de vento SE e outro de vento E. A exceção dos ventos de N e NW, os demais eram orça. Não tinha jeito. Nos dias de SE e E o mar crescia bastante. A nossa maior dificuldade era uma onda secundária que acertava a popa a todo instante nos tirava do rumo (às vezes de forma bastante violenta). Negociar com a onda do vento do dia era fácil, mas com essa, que vinha do vento do dia anterior ou de algum evento distante, era bem complicado. E ninguém que nos acompanhava pelo SPOT percebia que havia essa onda nos atormentando.

5. Vocês contaram com a ajuda de algum navegador em terra? Muitas pessoas me perguntaram sobre isso.
 
Muitos, em especial com os colegas da ABVC Claudio Renaud e Philippe Gouffon . O Mark,  do México e capitão do veleiro Russalkas of The Seas também nos enviava informações diárias. Tínhamos também uma equipe de terra, a quem devemos muito obrigado. O Thiago Jung cuidou da meteorologia até quase o final. Havia também um valoroso staff em terra cuidando dos assuntos administrativos.

6.Como estavam acompanhando a previsão meteorológica a bordo?
 
Puxávamos arquivos GRIB uma vez ao dia, com a previsão de três dias para o trecho que iriamos navegar. Além disso, recebíamos a previsão do Thiago e depois do Claudio e do Philippe por e-mail, todas as noites, essas com uma posição da macro. Essa mesma previsão nos era repassada por nossos amigos radioamadores, a quem também muito agradecemos pelas informações e porque era muito bom ouvir a voz de outras pessoas! Eles nos faziam muita companhia.

7.Vimos que o Spot funcionou durante toda a travessia. Quantas vezes chegaram a trocar as baterias do aparelho?
 
Apenas duas vezes. Em geral ele funcionou muito bem. Alguns sinais não foram enviados por baixa cobertura de nuvens, mas é assim mesmo.

8. Como foi a adaptação física e psicológica dos tripulantes ao longo da travessia? 
 
Muito boa. No começo foi aquela festa, amigos para sempre. Depois o dia a dia foi se tornando mais normal, com seus dilemas e conflitos. Não houve nenhuma briga ou discussão. Mas eram três capitães a bordo... Não saber a data de chegada pesou, assim como ficar mais do que os trinta dias previstos e perder os vôos de volta. Perdemos muito peso (eu perdi dez quilos), a barba e o cabelo cresceram muito. A maior lição dessa travessia, para mim, foi aprender, na marra, a "aceitar o tempo". Foi a coisa mais difícil que fiz na vida. A navegação era fácil. Ficar ali, dias a fio, controlando a ansiedade, não.

9. Alguns amigos navegadores acreditam que se estivessem seguido pelas latitudes na casa dos 45° sul talvez tivessem menos vento contra. O que levou vocês a não tomarem essa decisão de seguir mais para o sul, permanecendo na casa dos 35°? 
 
Na tela do computador e nos grupos de whatsapp é sempre mais fácil do que "lá". Não descemos porque fomos realistas e responsáveis. Havia ventos favoráveis lá embaixo? Sim. Mas havia também depressões de 995 e ventos força 11 de vez em quando (fugimos de uma, que quando nos acertou por sorte já estava em força 8). Nossas velas, embora tenham sido feitas especialmente para esse projeto e serem novinhas em folha, possuíam limitações que não poderíamos ignorar. Eram perfeitas para a volta sob os alísios, mas não  para a ida nos quarenta bramadores. O mar não perdoa os pretensiosos. Fizemos a travessia que nos foi possível. E chegamos.

10. Como faziam os turnos? e como era a rotina durante o dia?
 
Durante o dia todos vigiavam o horizonte e o AIS. O leme de vento tocava o barco. O vento mudava pouco, de forma que as regulagens de velas permaneciam eficientes por horas, ás vezes dias. Eu fazia o primeiro tuno da noite, entre 21h e 00h. O Alan fazia entre 00h e 03h e o Spinelli entre 03h e 06h. Todos dormiam seis horas todas as noites, o que era muito bom. O turno do Alan era sempre o mais movimentado. Tinha sempre um navio passando perto, um rizo para fazer... era complicado!

11. O consumo de água e alimentos ficou dentro do planejado? Algum tripulante apresentou problemas de saúde?
 
Estávamos abastecidos para três meses. Dos 600 litros de água dos tanques, gastamos 250! E ainda chegamos com 50 litros de água mineral. Eu ter tomado apenas cinco banhos deve ter ajudado nesse baixo consumo (risos). A única coisa que acabou logo foram as frutas e as verduras. Mas isso não tem muito jeito. Nenhum problema de saúde. A Pharmácia Essencial do amigo Eduardo Colombo nos presenteou com um caixa de medicamentos absurdamente bem montada e o Alan é médico. Dentro do possível estaríamos preparados para alguma emergência, que por sorte não aconteceu.
 
 
12. Como foi o consumo de energia do barco? Tiveram que usar motor para completar a carga das baterias?
 
Sim, usamos. Muitos dias nublados. Aliás, sempre que o Tio ia usar o sextante, nublava. Fizemos apenas duas leituras da PMD. Para ele, que não queria usar GPS, isso foi bastante frustrante.

13. E quanto ao consumo de diesel?
 
Chegamos em Cape Town com 108 litros no tanque de 200 litros. O Tio não deixa usar o motor... nem nas calmarias. É um poeta purista.

14. Conte-nos um pouco sobre a pauleira que pegaram já chegando no destino. Chegaram a pensar em atrasar um pouco a chegada para escapar dessa tormenta?
 
As pessoas não entenderam essa parte e fico feliz em poder falar um pouco mais. Nós chegamos, sim, com ondas de quatro a cinco metros e ventos de quarenta nós de SE. Mas isso, e essa é a parte que ninguém entende,  ERA O TEMPO BOM daquela região! Não havia tormenta! O céu estava azul e sem nuvens! Se corrêssemos com o tempo ou esperássemos, viria - ai sim - o tempo ruim de verdade, que eu não quero nem imaginar como seria. Não contávamos com a força da corrente de benguela, um elemento a mais ai. Aquela região é muito especial e diferente do padrão que estamos acostumados. Chegamos usando vela e motor até conseguirmos nos abrigar na Table Bay. Então, próximo a costa, o vento caiu entre 15 e calmaria, o mar baixou e aproveitamos a vista incrível e inesquecível.

15. Quem era o Juca velejador antes dessa travessia? E agora, o que mudou?
 
Eu achava que fazer algo assim me faria sentir um velejador maior, confesso. Mas não me sinto assim. Dá orgulho? Dá. Mas eu me ressinto, em parte, de a navegação não ter sido tão complicada quanto pensei. O barco vai sozinho, de certa forma. O verdeiro desafio é que essa é uma viagem interior, que te coloca diante de seus anjos e demônios. Lidar com isso é muito complicado. Eu estava em um momento muto delicado da vida e posso dizer que essa viagem me curou de muita coisa. Passei por um divórcio dolorido. Minhas filhas se mudaram para longe de mim, outro estado. Essa travessia mostrou que quando a gente acha que não aguenta mais, ainda aguenta o triplo. Então, vou recomeçar, no pano mesmo.

16. Quais os planos de navegação futuros e o que pretende trazer para a sua Escola?
 
Quando a  gente termina uma dessas jura que não vai fazer outra tão cedo. Mas cinco minutos depois já pensa na próxima, não tem jeito. A Ilha de Trindade tem chamado minha atenção. Quem sabe?
 
A Cusco Baldoso é uma empresa está consolidada. Tenho orgulho de dizer que enquanto tem escola de vela por ai que faz o avançado velejando de Paraty para Angra, nós fazemos de avançado Ubatuba a Joinville. Já fomos até Buenos AIres com alunos e agora Cape Town (O Spinelli voltará com dois alunos). Em breve teremos muitas novidades. Uma delas que eu já posso adiantar é que em janeiro de 2019 faremos um curso avançado de vela oceânica em Cape Town, em parceria com uma academia de vela local. O foco será a navegação em ventos fortes e mar grosso. Vamos nessa, Elson?
Opa, vou sim!!!

17. e o livro, já está a caminho? já tem nome?
 
Sim, já comecei a escrever. Já já o meu editor, Ricardo Amatucci, recebe os originais. Se chamará "A Travessia Azul".
 
Leia também o diário dessa aventura no http://desafioafrica18.blogspot.com.br/
 
 
Que beleza! Hoje, 22/02/2018 o Tio Spinelli parte da África de volta ao Brasil com dois novos tripulantes, seus alunos. Acompanhe pelo Spot:
 
 
 
 
 
 
 

Comentários

Paulo Vinícius Arruda Passos em 24/02/2018 04:28:12
Grandes Capitães Cusco Baldoso e Aldaz Navegante Mucuripe

Espetáculo de velejadas, fascinante relato

Muito obrigado por compartilhar conosco, particularmente eu, um réles metido a navegador de cabotagem. Pois é, quem tem, tem medo, dizem

Abração amigos (o:
Henrique Bastos em 23/02/2018 09:21:27
Sensacional o relato. Parabéns pelo projeto. O mar tem realmente essa capacidade de nos fazer encarar profundamente nossos espelhos.

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