A Espetacular Volta ao Mundo do Veleiro Petit Prince

Publicado por Elson Mucuripe em 01/07/2017 às 12h46

Paulo Vinícius, Velejador Brasileiro. Esse é um navegador com muita história para contar! A bordo de seu Veleiro Petit Prince, um Fast 345, está fazendo uma circunavegação espetacular, ora em solitário, ora recebendo tripulantes com ou sem experiência para vivenciarem essa magnífica aventura a bordo.

Há poucos dias a amiga velejadora Marina Bruschi me ligou dizendo que o Paulo estaria vindo ao Brasil, com passagem por Brasília, e que nos presentearia com um bom bate-papo sobre esta volta pelo mundo. Então, através da ABVC DF e da FNB, com o apoio do Clube da Aeronáutica, estamos organizando para o dia 10/08/2017 uma palestra com o Paulo Vinícius para conhecermos detalhes dessa circunavegação como: Escolha da rota, preparação para a viagem, preparação da embarcação, documentação para partida, alimentação, equipamentos de navegação, estudo meteorológico, situações vividas durante a viagem.

Para já irmos conhecendo um pouco sobre esta aventura e seu comandante, tivemos um bate-papo descontraído com o Paulo, onde Ele nos conta boas histórias. Dá até vontade de largar as amarras e se mandar por aí!

 

Quando e como surgiu a idéia de fazer a circunavegação?

Sonho de infância, conhecer o mundo inteiro a bordo de um navio, um barco. Desde leituras de Robson Crusoé do Daniel Defoe, sempre quis ter maiores contatos com outras culturas e morar fora do Brasil.

Papai não tinha dinheiro para nos comprar carrinhos de ferro, o que todos os coleguinhas de escola possuíam e eu ficava morrendo de inveja. Aos onze, papai nos aparece com um mini veleiro oceânico, o super bom Atoll 22. Baita brinquedão, muito melhor que carrinhos de ferro. Paixão instantânea, veleiros e vida no mar. Já naquela época vi gente falando que queria dar a volta ao mundo em um Atoll 22.

Desde aquele primeiro contato com o mundo da navegação, iniciei e continuei a vida toda lendo sobre pessoas cruzando oceanos, velejando ao redor do mundo. Aos 45 anos de idade, resolvi que aos 50 anos iria sim velejar por todo planeta, sem data para voltar. Preparei o barco e as finanças para poder partir enfim, em 2014.

Como foi a escolha da rota a ser navegada?

A ida à Patagônia se deu porque tinha ido com o Petit Prince, barco que é nosso desde zero, por dois verões consecutivos de Angra para Búzios, ao encontro da mana caçula e seus lindos rebentos. Crianças com menos de três anos.

Em 2012 esta mana reservou um hotel em Gramado para passar o Natal de 2014. Reunião gigante de toda nossa família. Pessoal de Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Decidi então que iria naquele verão para Porto Alegre com o Petit Prince. Tenho tantos amigos velejadores no sul, mais a família gaúcha, por que não? Os primos gaúchos, desde adolescentes, sempre amaram navegar conosco.

E já que iria até Porto Alegre, por que não dar uma esticada até a Patagônia?  Sonho chegar lá com o nosso bravo barco. Resolvi então ir até Península Valdes, lugar que conheço desde quando tinha 20 anos de idade. Esta saída de Angra dos Reis para a Patagônia, em dois de dezembro de 2014, foi o início da circunavegação.

Após a nossa volta para Angra, a nova saída, final de julho de 2015, já tinha como destino, Tronso na Noruega. Ou seja, nossa ideia sempre foi cruzar do Atlântico para Europa por primeiro e conhecer de perto os povos dos países mais frios. Conhecemos um pessoal daquele extremo norte escandinavo, velejaram no Petit Prince em fevereiro de 2011, de Paraty para Ilha Grande. Norueguesas. Essas pessoas são as quais conheço que mais perto moram do Pólo Norte.  Resolvi então que um dia ia visitá-las em sua cidade.

Sou totalmente fascinado por aquelas regiões. Por tudo que li das aventuras dos primeiros aventureiros que foram "descobrindo" aquelas terras e mares. Navegadores, exploradores polares, tais como Fitz Roy, Cook, Bouganville, Bhering, Bird, Amundsen, Schakleton e tantos outros.

Resolvi que a volta ao mundo não seria a convencional pelos trópicos, mas sim por lugares que tenho gigantesca curiosidade em conhecer. Ter contato com a cultura dos povos que vivem nos mais duros invernos do planeta. Chegar navegando com nosso Petit Prince, e uma bicicleta, nas altas latitudes, à terra deles.

Existe um cronograma previamente definido para toda a rota a ser navegada com as datas prováveis de saída e chegada nos pontos principais?

Sim, existe um cronograma mais detalhado para os próximos 12 meses e estações do ano para os próximos trechos. Pretendemos navegar 43 mil milhas.

Nossos planos são sair para Cuba após o feriado americano de quatro de julho.

 

Quem são os tripulantes?

Variam de trecho para trecho. Poucas vezes navego em solitário. Talvez somente alguns trechos mais duros, ou quando tenho que ir para não perder a estação do ano, ou algum compromisso. Tais como encontrar alguém em um porto. Na maioria das pernas velejamos com amigos, antigos ou novos.

Muitos amigos são colaboradores. Financiam a viagem através de aluguel do Petit Prince, por cruzeiros que programamos. Ida de um trecho a outro, estadia em Saint-Martin e região, Cuba e por ai vai...

Outras vezes conseguimos que os amigos colaborem participando de algum evento. Tais como a Semana de Vela de Ilhabela, a Regata Recife - Fernando de Noronha, ou a Conch Republic Cup que iremos fazer.

A Conch Republic Cup é uma semana de regata que entre Key West, na Florida e Cuba. Velejaremos para Varadero e Havana, e retornaremos a Key West. Esta semana de vela e de 26 de janeiro de 2018 a três de fevereiro.

http://conchrepubliccup.org/

https://www.facebook.com/ConchRepublicCup/

Quando pretende fazer a travessia do Atlântico Norte e qual será a rota dessa travessia?

O caminho então escolhido foi através do Canadá. Terra Nova para o sul da Groenlândia, com escala na Islândia e seguir para Noruega. Dependendo das condições do verão boreal de 2018, talvez com escalas nas Ilhas Faroe e Shetland, que ficam um pouco mais ao sul do grande destino, o norte norueguês. Se conseguirmos, tentaremos sair direto da Islândia para Tronso.

Isto na temporada 2018. A navegação pelo norte do Pacifico dependera da nossa evolução na navegação pelo Mediterrâneo.

Caso possamos sim, cruzar o canal de Suez para o mar Vermelho e ir navegando até Cingapura, onde poderemos guinar novamente para as altas latitudes. Caso não encontremos a condição favorável no sul do mar Vermelho, como pirataria, teremos de circundar todo o continente africano.

Será feita alguma alteração estrutural no veleiro para esta navegada?

Planejamos reforçar a mastreação, mudando sua concepção original de sloop para cutter. Isto significa colocar um novo estai de proa, para suportar a vela trinqueta. Colocar dois estais volantes (runing's). Modificar o "back stay" de único para duplo. Na proa pretendemos colocar uma luva de aço inox. Não pretendemos navegar no gelo, porém, mesmo no verão, para onde iremos, existem sim alguns fragmentos de gelo.

E quanto aos custos envolvidos? Há patrocínio de empresas?

Os custos envolvidos estão sendo bancados da seguinte forma:

- poupança que fiz no Brasil antes de sair;

- trabalhos manuais que consigo fazer em países que remuneram com moeda mais forte, estilo Trinidad Tobago, onde trabalhei de pedreiro e muito pouco com manutenção de barcos;

- todos os trabalhos que envolvem manutenção de barcos, o que estou fazendo desde que cheguei aos Estados Unidos, no final de abril de 2017 até agora, final de junho;

- tripulantes que pagam estadias ou alugam o veleiro;

Não existem patrocínios.

Poderia nos contar um pouco sobre o trecho que já foi navegado desde dezembro de 2014?

Desde dezembro de 2014 já navegamos 9.730 milhas. Neste primeiro um quarto de volta ao mundo, os principais lugares já visitados foram:

- Península Valdes, no paralelo 42 S;

- Argentina entre Buenos Aires até a Península Valdes;

- Uruguai;

- Costa Sul do Brasil toda, incluindo duas idas a hiper querida Porto Alegre, tanto na ida, como na volta, onde o tradicional clube Veleiros do Sul foi nosso hiper anfitrião;

- A costa brasileira desde Angra dos Reis até o indescritível Delta do Parnaíba;

- Trinidad Tobago;

- Praticamente todas as ilhas de sota e barla vento do leste caribenho, entre Trinidad Tobago até Saint-Martin;

- Rapidamente as Ilhas Virgens Britânicas e Americanas;

- Passagem pela República Dominicana. Um mês em Cuba;

- Estamos em Key West, extremo sudoeste da Florida, Estados Unidos, desde o final de abril.

Saímos de Angra em dezembro. Escala em Itajaí, Rio Grande, onde embarcou o amigao Plinio Fasolo para nos conduzir pela Lagoas dos Patos ate seu clube, o tradicional Veleiros do Sul (VDS), em Porto Alegre. O VDS foi nosso grande anfitrião. Ficamos como seu convidado na ida para o sul até o dia 26 de dezembro/2014.

Nesta data zarpamos para Patagonia. Paramos em Tapes na lagoa dos Patos, e chegamos de volta a Rio Grande. De Rio Grande partimos para La Paloma, URUGUAI, nosso primeiro porto estrangeiro.

Neste porto passamos o ano novo. Seguimos então para Piriapolis e Montevideo, de porto do Buceo fomos para a ARGENTINA, em Puerto Madero, Yacht Club Argentina, por uma semana de cortesia. Seguimos para a baia de Nunes, onde ficamos em dois clubes por cerca de mais duas semanas.

De Nunes navegamos a jusante do Rio da Prata para La Plata, por cerca de 20 milhas. Lá ficamos em outro clube mais uma semana.

De La Plata fizemos uma excelente velejada para o sul, Mar Del Plata. Onde acredito que tenha ficado só dois ou três dias, porque tinha de aproveitar a janela de tempo para ir para a Península Valdes.

Mesmo eu tendo me programado dois anos antes que iria até a Península Valdes, o tempo todo, no caminho, via as alternativas. Caso as condições meteorológicas não favorecessem, abortaria a missão. Regressaria. Tava com muito medo mesmo.

De Mar Del Plata para a Península Valdes fiz em solitário. Todos os que eu tinha convidado para este trecho, por um motivo ou outro, não puderam se juntar a mim. Três dias espetaculares indo para o Sul. O grande companheiro desta viagem foi o senhor Medo. Visitas constantes de cardumes de golfinhos, cada dia aparecia um tipo diferente.

A chegada na Península Valdes foi muito tranqüila. Brisa de SW, dia de sol. Consegui parar o barco em uma praia isolada daquele fantástico lugar. Ficar apreciando de perto seus selvagens banhistas, irritadiços, agitados, medrosos leões marinhos, pacatos e dorminhocos adolescentes elefantes marinhos. Isto era final de janeiro, inicio de fevereiro de 2015.

Desta praia, na costa sul da península, entramos no final do dia dentro do Golfo Nuevo, em uma velejada memorável. Vento bom, mar liso, por do Sol espetacular. Jogamos ferro nas praias em frente Puerto Madryn. Gigante foi a  felicidade de ter conseguido chegar ali, sozinho. Quando a âncora unhou nas areias do fundo do Golfo Nuevo, parte de um sonho acabava de ser realizado.

Um par de semanas em Puerto Madry, outra semana em Puerto Pirâmides. Em Puerto Madryn foi o maior susto de toda a viagem, 60 nós de vento ancorado, em uma congelante noite. Ondas curtas, cavadas e rápidas. O barco pulava muito. Não tinha coragem de ir a proa verificar a corrente e o cabo da segunda ancora. Tal medo paralisante de cair n’água. Lembro de ter colocado três casacos de tempo, um sobre o outro. Duas calcas, mais a calca de tempo. Duas meias  e bota de borracha, gorro. Mesmo assim morria de frio. A grande preocupação eram as ancoras garrarem e o barco ser arrastado para o monumental pier de navios, com mais de 20 metros de altura, que estava a sota vento.

Foi um tormento aquelas horas da tempestade. Era sábado de carnaval de 2015. Uma hora pensei, “o Brasil inteiro se embriagando, pulando carnaval no maior calor, e eu aqui, quase pulando no bloco dos pingüins naufragados! Kekitofazendoaki pelamordideus??!!???”

Porem, sério, este stress leva a um cansaço físico. Acabei dormindo. As ancoras e as amarras aguentaram bem. Sendo que a danfort, de 15 quilos, envergou sua haste.

De Madryn naveguei 40 milhas para o outro lado do Golfo, Puerto Pirâmides.

Puerto Pirâmides é o pequeno povoado dentro do parque que é a Península Valdes. Lá a bandeira brasileira foi nosso grande cartão de visita. Chegamos em uma sexta feira linda, verão já adiantado, meio que final de estação. A amplitude de maré dentro do Golfo Nuevo atinge 4 metros. Então tivemos que ancorar bem longe da praia. O motor de popa do botinho não estava nada confiável.

Com o movimento de barcos que vi em volta, pedi carona para uma lancha inflável bem grande. Isto com a bicicleta pronta para desembarcar. O casal que me deu carona, de pronto me ofereceram um quarto no hotel deles. Porque tinham um amigo, local também, que ama o Brasil. Convidaram-me para jantar o salmão branco que tinham pescado e conhecer seus amigos lá de Pirâmides.

Assim fui fazendo amizade com estes argentinos que exploram turismo em um lugar que considero incrível, a Península Valdes. Lá, o forte é a estação das baleias, de junho a dezembro. Muitos barcos para avistar os gigantes cetáceos de perto.

Em Pirâmides, naquela noite de sexta feira, terminou os últimos goles da cachaça Gabriela, Tinha trazido três garrafões de 5 litros. Bom grogue de Paraty para fazer novos relacionamentos. Cachaça, melado de cana, cravo e canela. Memorável festa naquela sexta. Dizem que nunca fiz amigos oferecendo leite. Dizem!

O casal fez questão que eu ficasse no hotel deles a semana toda.

De Pirâmides começou o regresso. Uma bela francesa e um novo camarada italiano embarcaram conosco para o Norte. A previsão era pegarmos 40 nós de proa, nordeste que iria ser por um curto período, e depois passar. A saída do Golfo Nuevo é pelo sul. Então, aquele nordestão favorecia, mar plano e vento favorável, na saída sul, e depois través fora da boca do Golfo.

Chegamos na boca do Golfo por volta da meia noite. Caso não quisesse mar, tinha que navegar bem grudado a costa, na direção leste. Cansado como estava, dormi um pouco, para isto, coloquei o rumo no piloto automático um pouco mais para fora.

Quando amanheceu, estávamos 10 milhas longe da costa. Com o nordeste de 40 nós, o mar já tinha virado um inferno, com ondas fortes e aquele mar de proa, então eu reduzi ao máximo e entrei na capa, esperando aquela ventania acabar, conforme tinha visto na previsão.

Dito e feito, por volta do meio dia já tava tudo calmo. Tivemos uma baixa, o italiano queria me matar! A francesa aguentou firme, ela e o Petit Prince. Gozado como nestas horas parece que o Petit Prince fica tirando uma comigo. Meio que perguntando, ta com medinho, ta??? E ele diz para mim, eu não, seu bundão! kkkkkk. Sério, o barco é muito mais forte e valente que eu.

A previsão era para os próximos dias entrar novos nordestes. Então fomos para a alternativa San Blás, um estuário antes de Mar Del Plata. Lá, o amigão italiano se pirulitou de carona em um caminhão de levar pescado, para baia Blanca. Fiquei com a francesa em um hotel, por uns três dias, esperando a janela de tempo para podermos ir para Mar Del Plata.

Em Mar Del Plata entrou mais um amigo que tinha conhecido em Ilha Grande, ele foi conosco direto para Montevidéu. Na capital uruguaia, saiu a francesa e entrou um casal de italianos. Com os italianos fizemos Buceo, porto do Yacht Club Uruguaio para Punta Del Leste, La Paloma, Rio Grande, Porto Alegre, Rio Grande, Imbituba e Florianópolis.

Em Florianópolis reencontrei o grande amigo, e apoiador desta circunavegação, o Comandante, Físico, Professor, velejador do tradicional Veleiros do Sul, de Porto Alegre, amigo Plínio Fasolo. Conforme ja citado acima, Plínio já tinha vindo a bordo quando, na qualidade de nosso prático, nos conduziu de Rio Grande a Porto Alegre na primeira vez. Plinio, Cicerto Hartmam, Eduardo Ribas e toda a galera do Veleiros do Sul foram hiper parceiros conosco.

Plinio comentou algo como, que ele, em seus 50 anos que navega no rio Guaiba, sempre ve no veroes, ao menou um, ou mais barcos saindo de Porto Alegre para Angra dos Reis. Vir um barco de Angra para Porto Alegre, para passar o verao no sul, era primeira vez que via acontecer.

Com seu barco, o Feitiço, um exclusivo Delta 32 Pilot House, navegamos lado a lado de Florianópolis até o Caixadaço, em Porto Belo. Com direito a resgatarmos uma canoa virada em uma praia de Floripa.

A programação era estar em Itajaí em abril de 2015, junto com a Volvo Ocean Race. Consegui trabalhar no time Turco-americano Alvi Medica, como "shore crew".

Terminada festa da Volvo, navegamos para São Francisco do Sul. Ficamos no Museu do Mar e fui hiper bem recebido pela nova amiga Marina Bruschi. Plínio e seu muito bom Feitiço chegaram logo depois.

De São Francisco do Sul saí com uma amiga mexicana para Ilhabela, 40 milhas antes da lage de Santos, na madrugada, o eixo do hélice quebrou, 7 horas da noite, de um domingo, estávamos encalhados, com genaker içada, sem vento, no canal de acesso do Clube Internacional de Regatas – CIR, na Poca Farinha, Guarujá. Lá consertamos o eixo e fizemos pintura de fundo.

Destaque para a muito boa hospitalidade do CIR. Bom serviço dos estaleiros do Guarujá, e o auxilio dos pescadores da Poca Farinha.

Do Guarujá em solitário para Ilhabela. Dois dias por lá.

Cheguei a Paraty e encontrei o amigo Plínio Fasolo com seu Feitiço. Fomos para Angra e ele ficou um curto período no nosso clube, Angra dos Reis Marina Clube, ARMC.

No mês de junho tinha um compromisso, acredito que marcado com dois anos de antecedência, de receber a mana de Brasília e seus filhos, os pequenos de quatro e seis anos. Passamos o feriado de Corpus Christi na espetacular Ilha Grande, na muito agradável temperatura do ameno inverno fluminense.

Em julho participamos da famosa Semana de Vela de Ilhabela.  Vieram seis tripulantes. Novo reforço de caixa para o barco.

Final de julho despedida do ARMC.  Rumo a Tronso, Noruega. Sabia que ia dar a volta ao Mundo, porem sem muito planejar por onde ou quando.

Barco cheio de amigos. Argentinas, brasileira, argentino e uruguaio. Chegamos a Cabo Frio. Embarcou mais uma bela gata brasileira. Final de semana em Búzios.

De Búzios fui com um casal de amigos, ele argentino, ela uma gatinha mineira/italiana, para Vitoria, Abrolhos e Porto Seguro.

Em Porto Seguro embarca o amigão Gilson Prudente, que tem com base o Pontal do Sul, no Paraná. Navega muito a região de Paranaguá.

O Petit Prince estava nos flutuantes da Associao Nautica de Itajai, ANI, e o Gilson dia bateu no casco, me procurando. Fiquei meio surpreso. Disse que acompanhava as navegadas do Petit Prince pela redes sociais. Sabia que estavamos vindo da Patagonia e gostaria de me conhecer pessoalmente.  Virou um amigão instantaneamente. Junto com o Plínio, e outros velejadores, fizemos uma super festa no Itajaí StopOver, da Volvo Ocean Race.

Com Gilson fomos para Ilhéus, e seguimos para Barra Grande, no litoral baiano, em Camamu. Na Ilha do Sapinho conhecemos o casal do Andante, um Delta 36. Paula e Fernando e seu amado cãozinho Chopinho. Eles já tinham ido e voltado com seu veloz Andante ate Portugal. Quando nos encontramos em Barra Grande, Bahia, os dois veleiros estavam subindo a costa brasileira para a Refeno.

Continuamos Gilson e eu para Morro de São Paulo, onde ele desembarca.

Sigo solo para Salvador, e de lá para Aratu, outro lugar bem legal. Em Aratu embarca um camarada francês para fazer a perna para Recife. Isto já estamos em setembro de 2015.

Participamos da Refeno. Estávamos em cinco tripulantes. Em Fernando de Noronha conheço o hiper simpático e anfitrião casal Edna e Eder, do barco de aço Piata. Eles nos convidaram para irmos para sua casa em Barra do Cunhau, sul de Natal, ao lado da cidade de Baia Formosa, ainda no Rio Grande do Norte.

Saí de Fernando de Noronha para Natal na Fenat, em solitário. Por Natal algumas semanas, fomos junto com mais três barcos para Barra do Cunhau e para sermos recepcionados pelos amigos Edna e Eder.

Os barcos eram a Argos, outro Fast 345 do casal Mariana e Andre, o Andante, Delta 36 do casal Paula e Fernando e o Carapitanga, Aladin 30, do casal Viviane e Filipe. Chegou mais o Pura Vida, catamaram da família Artur, acho que quatro anos, Elaine e Peter, de Florianópolis;

Ficamos neste grupo por poucos meses na agradabilíssima Barra do Cunhau. O Andante de Paula e Fernando voltou para o sul, os outros três foram para o norte, para seguirem para o Caribe.

Fiquei sozinho por novembro e dezembro e passei Natal e ano novo lá em Barra do Cunhau. Em janeiro voltei solo para Natal. De lá, junto com um amigo potiguar, fomos para Galinhos, RN. Este amigo desembarcou e então embarcou um novo tripulante com o qual fomos até Jericoacoara, Ceara.

Em Jericoacoara ele desembarca e entra um grupo de três meninas e um camarada. Fomos nós cinco para Tutoia, Maranhão, e Ilhas Canárias, no Piauí. Este pessoal desembarca naquele paraíso.

Fico por um par de meses "hospedado" na comunidade do Morro do Meio, nas Ilhas das Canárias. Eita povo maravilhoso. Atividade principal daquele povo: catadores de caranguejo. Famílias muito bacanas.

Fiz amizades com eles, reformamos a chalana escolar, matamos dois bodes, algumas pescarias. Lugar bom demais!

Penso em me aposentar por lá, caso consiga sobreviver a todas as navegações que ainda me proponho até os 85 anos de idade.

No Delta do Parnaíba embarcou uma amiga Luiza Torquato.

Luiza tinha conhecido junto com o Gilson, quando paramos em Porto Seguro. Paulistana hiper do bem, garota nova. Nos vendeu uns “chot’s” doidos la em Arraial d’Ajuda no bar restaurante onde trabalhava.

Com Luiza fizemos direto Tutoia para Tobago em 14 dias. Tive que evitar entrar em Belém, e outros lugares devido ao medo de pirataria. Tinha ouvido alguns causos. E com uma menina a bordo, mais medo ainda.

Em Tobago chegamos por Charloteville, um encanto de lugar. Tobago é o grande resort deste rico país que é Trinidad Tobago. Eles têm petróleo. E uma antiga colônia do Reino Unido.

Em Tobago praticamente toda a população é descendente de africanos. Pense em um povo grande, são os tobaquenses. Lá trabalhei de pedreiro e Luiza de garçonete por 20 dias. Fez sucesso fazendo caipirinhas e distribuindo “fartos e belos sorrisos brasileiros”. Conseguiu boas gorgetas, que tinha de dividir com a hiper mal humorada colega no boteco lindo a beira de uma praia cartao postal caribenha.

Depois de ficar por dois meses em Tobago, rumamos para Chaguaramas, em Trinidad. Era já o inicio da temporada de furacões de 2016.

A Luiza conseguiu um barco para trabalhar, e foi com este barco para o norte caribenho. Fiquei de castigo por lá até novembro. Sem poder trabalhar em Trinidad. Chegou uma nova tripulante italiana. Com ela saímos dia 11 de dezembro, para ir subindo as ilhas caribenhas de sota e a barla vento até Saint-Martin.

Fizemos Granada, São Vicente e Granadinas, onde passamos o Natal e ano novo 2016/17.

De Bequia, nas Granadinas, seguimos para Santa Lucia, Martinica, Dominica, Guadalupe. De Guadalupe direto para Saint-Martin, onde iria receber uma amiga velejadora gaúcha. Com a gaúcha e mais dois amigos de Florianópolis, navegamos por Anguilla, Saint Barthelemy e Saint-Martina. Foram os meses de fev e mar de 2016.

Combinei com uma amiga, que conheci lá na Patagônia, de dançarmos salsa em Cuba. Consegui convencê-la a vir lá de Península Valdes para Havana. Tinha de pegá-la no último dia de março no aeroporto.

Saiu comigo de Saint Martin, Marigot, capital da parte francesa, uma nova amiga portuguesa, a Sonia Silva. Sonia já estava há uns meses velejando de carona, morando em fazendas orgânicas, trocando trabalho por teto e comida. Tranqüila e brava. Mais uma amizade formada. Com Sonia, fomos direto para Ilhas Virgens Britânicas. Chegamos à Virgem Gorda, espetacular, com Iates gigantes e muito veleiros. Tivemos a colher de chá do super resort Bitther End Yacht Club. “Iate Clube Amargo Fim”, em traducao livre.

De amargo nao tinha nada. E sim, como foi doce nosso inicio junto as virgens. Mesmo ela sendo uma a virgem mais fofa.  Serio, lugar super lindo, pessoas hiper educadas.

Da Virgem Gorda navegamos para Saint Thomás. Foi nossa entrada nos Estados Unidos. Esta ilha faz parte do arquipélago da Ilhas Virgens Americanas. De Saint Thomás para Puerto Rico e de Puerto Rico para Republica Dominicana, RD.

A parada na RD foi estratégica. Acabar de abastecer o barco de comidas legais para receber a amiga pinguina. Estava em uma baita dúvida se encontraria comida ou não em Cuba. Já tinha escutado coisas muito ruins sobre a RD e suas autoridades. Sonia e eu entramos por Luperon, litoral norte, bem oeste do país, próximo a fronteira com o Haiti.

Chegamos na calada na noite, em uma sexta feira, naquele porto que é um excelente "hurricane hole", abrigo para se proteger de furacões. Sábado bem cedo, já tem alguém batendo papo com a Sonia logo pela manha. Já tinha me desacostumado disto.

Nos países, ilhas, mais pobres caribenhas, tu és abordado por todos. Pessoal oferecendo serviços. Água, combustível, lavanderia, poita, o que seja para conseguirem te tirar algum e poderem sobreviver.

Já estava há quase dois meses só passando por ilhas ricas. Puerto Rico, Virgens Americanas e Britânicas, Saint Martin, Anguila, a caríssima Saint Barthelemy, onde o Sylvester Stallone passa o ano novo. Tu te esbarras com o Leonardo DiCaprio comprando sapato. Assiste a Bruna Marquezine e a Sasha, filha da Xuxa, nervosas porque a mega celebridade internacional tá na área.

Nestas ilhas ricas, entra e sai sem ninguém lhe dar um simples bom dia. Nas ilhas pobres caribenhas, de longe os prestadores de serviços já vêm como podem, de barcos a motor, ou mesmo a remo, oferecer seus préstimos ou mercadorias.

Entrando na RD, não foi diferente. Tinha um senhor local, que há anos limpa fundos de barco e auxilia bem quem está chegando ao seu país. Vende a bandeira de cortesia e tudo mais. Fizemos lavanderia e compramos água com aquele senhor. Era sábado pela manhã, e perguntei onde ficavam as autoridades para fazermos o "clearance".

Tudo certo, saí para a cidade mais próxima, para terminar o abastecimento de alimentos. Na volta, à noite, encontro Sonia dentro de um minúsculo barco oceânico. Tava de maior papo com o jovem polonês, seu capitão. Claro que me enturmei com os dois. Combinamos no domingo, de irmos passear pela agradável e pequena cidade de Luperon. Almoçamos, tomamos um par de cervejas, e resolvemos ir ao boteco onde se reúnem os velejadores locais. Estava cheio de veleiros em Luperon.

Boteco bem meia boca, com um povo de astral não tão alto. Porém tinham três mochilas lá, e já a noticia correndo que três russas que tinham chegado. Estavam procurando um barco para irem até Cuba. O Michal, polonês, estava indo para a Bahamas, no seu rumo para cruzar o atlântico de volta para Europa com aquele botinho a vela.

Bom, olhei para ele, e disse, vum bora ver como são estas pobres soviéticas, aí nois decide se podemos ajudá-las ou não. Bão, não demorou dez minutos aparecem as moiçolas, duas lindas siberianas e outra bela forte moscovita. Papu vem, papu vai, vum bora todo mundo para Cuba. Assim o Petit Prince chegou em Puerto de Vita, no final de março, com a Sonia, portuguesa, e duas hiper agradáveis, meninas hiper cultas e descoladas, alem de serem super gatinhas. As siberianas.

A chegada em Cuba foi um show a parte. O motor quebrou nos baixios do porto. Eu tentando desencalhar o barco. Fomos rebocados para a marina. Antes disto, eles fizeram todos os procedimentos de entrada como lemos nos manuais. Bandeira Q, de Quebec, quarentena hasteada. Fundeados fora, veio o médico. Examinou um por um de todos nós. Todos saudáveis, arria a bandeira Quebec, hasteia a de Cuba e vamos para os outros procedimentos. Dois cães vêm a bordo, procurar explosivos e narcóticos. Fora as revistas, trocentas perguntas das autoridades. Em Puerto de Vita desembarcam as meninas, e sigo solo, sem motor, para Havana. Saio em um ventão, porem a favor, sozinho nas 400 e poucas milhas.Cheguei na marina Hemingway, 8 milhas oeste do porto de Havana. Depois de dois dias fui buscar a querida no aeroporto, em um lindo classico azul Chevrolet dos anos 50.

Consertamos o motor em Hemingway. Bailamos salsa no Malecon e em belo hotel da marina Hemingway, a beira da piscina, em uma caliente noite cubana. Fomos navegar para os cayos, a oeste. Espetaculares! Lembram a tranquilidade das águas de Paraty, porém, muito mais transparentes e quentes. Fizemos turismo rural pelo interior de Cuba. A amiga voltou para a Argentina e nós, Petit Prince e eu para Hemingway.

Da marina, parti solo para Key West, Florida, EUA à 90 milhas. Chegamos ao final de abril. Nossos planos são agora, depois do feriado de quatro de julho, sairmos de Key West e voltarmos para Cuba.

 

Como é a questão da permanência nos diferentes países?

Cada país tem sua regra de permanência. São acordos de reciprocidade com o governo Brasileiro. 

Faço da nossa permanência, o interesse em esticar ou não nestes países. Estilo ficar em Trinidad Tobago aguardando o final da temporada de furacões ou ir para outros países porque temos passeios agendados, ou a busca de trabalhos e fazer turismo.

Qual a data da próxima etapa e qual o trecho a ser navegado?

Até fevereiro de 2018, estaremos navegando entre Flórida, Cuba, México e Bahamas. Os próximos trechos serão: a ida até Nova Iorque, Montreal, no final do inverno boreal e começo da primavera. No final da primavera, já deveremos estar na Terra Nova, Canadá, aguardando a janela de tempo para podermos navegar para o sul da Groenlândia. Nossa rota cruzando o Atlântico Norte será esta. Caso as condições recomendem irmos direto para Noruega, assim o faremos. 

Como está sendo documentada essa circunavegação?

Muitas publicações na rede social Facebook. Fotos e filmes, um pouco registro no diário de bordo.

Pretendem publicar algum trabalho impresso ou em vídeo?

Sim, após completar esta primeira circunavegação, pretendo escrever um livro e porque não editar as filmagens e publicar no Youtube também, afinal de contas, acredito que assim, muitas pessoas são inspiradas pelos sonhos de nosso caminho e acabam tomando coragem para realizá-las!

 

Bons Ventos ao Petit Prince!

 

 

Categoria: viver a bordo

Comentários

Maria Amelia em 23/07/2017 12:06:49
Parabéns comandante ! Fascinante o relato dessa maravilhosa aventura! Parabéns mesmo querido Primo ! Bjs
Marcio schultz ferreira em 21/07/2017 21:39:17
Parabéns "capitão " bons ventos e esperamos voce em BSB
Artur Dias em 14/07/2017 07:09:04
Fantástico, meu velho amigo! Você está realizando um sonho que muitos não tiveram coragem de enfrentar. Só tenho que lhe parabenizar e lhe desejar boa sorte nas próximas viagens, mas uma coisa é certa: você já fez história. Um grande abraço e espero revê-lo em breve.....
Sérgio Cracasso CIAO! em 04/07/2017 20:17:49
Parabéns aos comandantes
Pela aventura e pela reportagem
Sempre com vcs, no mar , na rede e acompanhando as travessias 😃😜⛵️⛵️👊
Ronaldo Mendonça (gigante) em 04/07/2017 15:53:35
Grande Capitão, fantástico relato, eu que gosto de velejar, teria o prazer em ler um livro seu,gostei da parte que você relata do med‪o,penso eu que temos que ter coragem, mas sempre ter medo,um documentário e tanto...... Parabens.
Moro em Ubatuba -SP, praia barra seca, à uns dez anos cuido de vários veleiros, e do carapitanga também que você o conheceu, quando estiver navegando caso queira passar por aqui, estaremos a disposição.
Marcial de Avila em 02/07/2017 10:05:02
Gostei de todos seus relatos . Escreva logo seu livro e, atenção , fale MUITO e BASTANTE sobre o barco e a navegação . Deixe o turismo de lado . Parabéns !!
Jose Luiz azeredo em 02/07/2017 07:12:46
Que relato fantástico, sou velejador é este foi sempre o meu sonho, quem em alguma perna desta não possa tripular o seu barco?
Saudações Náuticas!
Diógenes Rabello em 01/07/2017 19:16:51
Comandante, show de entrevista, baita documentário, abraços
Gilson Prudente Gonçalves em 01/07/2017 16:42:48
PARABÉNS Grande capitão, muito bacana e bons ventos!!! Estamos lhe aguardando.
Paulo Vinicius Arruda Passos em 01/07/2017 12:46:56
Grande Comandante e novo amigo Elson,

muito obrigado!!!

Pelo super bom direcionamento das perguntas, e de podermos ja aumentar os registros deste sonho que vivemos. Ate Brasilia!!!!

Grande abraco,

Paulo (o:

Key West, 1o de junho de 2017

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