Blog Velas do Mucuripe

Morando, vivendo e trabalhando a bordo de um veleiro

Publicado por Elson - Mucuripe em 30/05/2017 às 22h43

Parece até que viver a bordo de um barco está virando moda! Não, não é bem assim, pois viver a bordo requer muito desprendimento. Mas, alguns casais estão descobrindo que essa forma de vida não é lá tão complicada assim, e que não é privilégio de quem tenha muita grana, muito pelo contrário. Temos visto que vários casais brasileiros estão investindo suas pequenas economias, e até mesmo vendendo o que têm para realizarem o sonho de viver a bordo. Comprar um barco usado e em boas condições de moradia não é algo tão dispendioso, é até bem mais barato do que comprar um imóvel simples. Mas, ter esse desprendimento e coragem, isso sim é para poucos.

Recentemente conheci em um grupo de velejadores que participo, um casal do Sul do Brasil que resolveu soltar as amarras, vendendo tudo o que tinham para investir numa nova forma de viver, num veleiro de 37 pés. Bruna e Jairo não pensaram duas vezes para fazer essa escolha, e estão felizes morando, vivendo e trabalhando a bordo do Caboges.

Bruna tirou um tempinho para nos contar um pouco sobre a vida a bordo do Caboges:

 Há quanto tempo moram no barco?

Desde Janeiro de 2015

Como surgiu a idéia de morar a bordo?

Já tínhamos o barco que era nossa casa de praia, que estava em reforma. Morávamos no sítio do meu pai. Compramos uma casa na planta que seria entregue em março de 2015. Pensamos em ficar no barco esses 3 meses e adiantar a reforma. A casa foi entregue somente em 2017, então fomos ficando no barco até não querermos mais ir para casa, onde nunca dormimos uma noite sequer e que vendemos recentemente.

Há quanto tempo velejam? onde começaram?

O Jairo veleja há uns 10 anos e eu desde que estamos juntos, há 6 anos. Tudo começou no Lago Guaíba com um atol 23 e depois um S2 minuano 28. O jairo sempre foi apaixonado por água, surfava todos os finais de semana mesmo no inverno Gaúcho. Quando pisou no veleiro passou a surfar as ondas do Guaíba de barco.

Por quais lugares já passaram desde que decidiram morar a bordo?

Conhecemos o Guaíba de ponta a ponta, algumas partes do Rio Jacuí e Lagoa dos Patos, a qual recomendamos a todos conhecerem. Há muitas belezas escondidas e uma navegação bem diferente. Viemos em uma única perna de Rio Grande a Garopaba.  Conhecemos toda a região de Florianópolis e Porto Belo, depois tocamos em outra perna para Ilhabela, Ilha Anchieta e região de Ubatuba. E agora ficamos entre Paraty e Angra.

Quanto tempo pretendem ficar pela região de Paraty?

Não temos previsão, a idéia é de ficarmos pelo menos até a Páscoa do ano que vem, quando começaremos a subir para Refeno. A partir daí não sabemos.

Vocês ficam em alguma Marina?

Não, ficamos na âncora,  nos deslocamos com o bote de apoio. Mas ainda somos sócios do iate clube Guaíba, Porto de origem.


Como foi a escolha do barco?

A idéia sempre foi um barco de aço com quilha retrátil para se deslocar no Guaíba e lagoa dos Patos, onde o calado é baixo. E o Caboges foi um achado.

Barco de aço dá muita manutenção?

MUITAA, requer uma atenção maior.


Qual é o modelo do Caboges? onde foi construído? onde compraram?

Construção de aço francesa projeto Caroff-Modelo Bulle de Soleil 37 pés. Compramos ele na Bahia, foi projetado para desbravar a Antártida. 

Por onde pretendem navegar?

o jairo não abre mão de conhecer a Patagônia e o Caribe. E não descartamos a possibilidade de volta ao mundo. Mas nossa casa por enquanto será entre Ilhabela, Paraty e Angra.

O que faziam antes de morar a bordo?

Jairo, fisioterapeuta.

Bruna, formada em direito, assistente jurídica. 

Hoje qual é o meio de sobrevivência?

Charter


Quando começaram a fazer charter?

No início de fevereiro deste ano.

Quais são as opções de serviços oferecidos no charter?

Conhecimento de navegação e de vela; Day Charter, Pernoite, refeições, bebidas e drinks, snorkel, bote para deslocamento para a praia, stand up, e troca de conhecimentos de como funciona a vida a bordo.

Pretendem ter filhos e criá-los a bordo?

Pensamos muito sobre o assunto, mas nunca decidimos nada. Deixar acontecer. Se tivermos, serão criados a bordo.

Como a família encara essa opção de vocês?

No começo achavam que era loucura. Hoje gostam, e acham que não poderíamos ter escolhido melhor estilo de vida, em tempos com tanta violência. 

 

Muito obrigado, Bruna e Jairo, por compartilharem essa bela história de vida a bordo!

Bons Ventos ao Caboges!

Categoria: viver a bordo
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Opções de Charter de veleiros no litoral do Brasil

Publicado por Elson - Mucuripe em 16/04/2017 às 19h32

Uma boa opção para quem quer velejar no Mar é contratar um serviço de Charter. Muitos amigos velejadores oferecem charter em vários pontos do litoral brasileiro. O Charter consiste em um aluguel da embarcação por um determinado período, podendo ser tripulado ou não. Geralmente o charter não tripulado (bareboat) é oferecido por empresas especialistas no ramo, e o público alvo desse tipo de charter são pessoas já habilitadas e com experiência em navegação e rotinas a bordo.

Para os que não têm muita experiência, ou mesmo não querem ter trabalho, deixando o comando do barco com o comandante ou skipper contratado, a melhor opção é o charter tripulado. Nessa modalidade de Charter, temos empresas e também proprietários de veleiros que oferecem diversos serviços diferenciados para proporcionar uma boa experiência a bordo, com conforto e segurança. Essa, com certeza, é a melhor opção para quem quer curtir uma boa hospedagem em um veleiro, podendo fazer ótimos passeios em família. Os serviços oferecidos no Charter variam bastante, podendo ser incluído apenas o fornecimento de roupas de cama e utensílios de cozinha para que você possa ficar à vontade para preparar suas refeições, ou um charter completo com todas as refeições a bordo preparadas pela tripulação.

Com isso, me sinto à vontade para indicar algumas opções de charter oferecidos por amigos velejadores espalhados pelo litoral brasileiro. Aqui no site criei uma seção somente para este fim, e na medida do possível, procuro trazer novas opções.

CLIQUE AQUI

Acrescentei na seção mais algumas opções de charter de amigos do Sul e Sudeste do Brasil.

 

Quem pretende conhecer a região de Búzios, Cabo Frio, Arraial do Cabo,  a bordo de um veleiro muito confortável e espaçoso, o amigo velejador Marco Cordeiro, oferece excelentes passeios a bordo do Labadee, um Bruce Farr 38, com opções para pernoite ou não. Os serviços são combinados conforme as necessidades do cliente. O comandante Marco também oferece oportunidades em travessias pelo litoral do Brasil quando sobe seu barco para fazer a Refeno, quando também disponibiliza vagas para tripulantes pagantes na regata para Noronha e na volta para o continente.

Contato whatsApp 22.998835332

https://www.facebook.com/veleirollabadee/

 

 

Uma excelente opção em Paraty é o charter a bordo do veleiro Oceanos, um Trinidad 37, do Capitão Marco Ferrari. O veleiro Oceanos é um barco muito confortável e muito bem equipado. O próprio Capitão Ferrari é quem tripula o charter, e isso faz com que seja um charter personalizado, onde você terá a oportunidade de aprender a velejar com um Capitão experiente, que já formou vários velejadores no Brasil. O charter é para 04 pessoas além do comandante. O barco possui duas cabines com cama de casal e um salão com duas de solteiro. São oferecidas roupas de cama e utensílios de cozinha. É uma ótima oportunidade para quem quer entrar para o mundo da vela oceânica.

capitaoferrari@gmail.com

 

Também em Paraty temos a Latitude Charter, empresa de charter do renomado velejador Hélio Magalhães, autor de vários guias náuticos do litoral brasileiro, indispensáveis para qualquer navegante. A Latitude Charter é especialista em charter de alto padrão de serviçõs oferecidos a bordo com muito conforto e segurança. Faça uma visita no site e conheça melhor a Latitude Charter.

http://latitudecharter.com.br/

 

Em Angra dos Reis o casal Guta e Fausto oferece um ótimo charter a bordo do Guruçá Cat, um confortável catamarã de 54 pés, que já deu a volta ao mundo. É uma ótima opção para um grupo de amigos ou familiares, onde irão conhecer a belíssima região da Ilha Grandee conhecer este famoso catamarã que foi projetado e construído pelo próprio comandante Fausto.

http://www.gurucacat.com.br/p/chartes-passeios.html

 

Se você pretende ter uma experiência de como é viver a bordo, o amigo Previdi, que mora a bordo com a família, oferece essa oportunidade alugando camarotes de seu catamarã. Essa é uma opção muito interessante, onde você irá interagir com uma família do Mar. Por enquanto eles estão com o veleiro em Florianópolis, e depois irão subir a costa brasileira permanecendo um tempo em cada recanto desse nosso lindo litoral.

catguina@gmail.com

 

 

Acesse a seção exclusiva com todas as opções de Charter.

http://velas-do-mucuripe.sitepx.com/aluguel-de-veleiros-no-litoral-e-no-exterior.html

 

Categoria: Charter
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Traga seu filho para Velejar no Lago Paranoá!

Publicado em 23/01/2017 às 07h22

O Mundo da Vela nos ensina bem mais do que podemos imaginar, nos traz uma nova percepção do sentido de viver plenamente com a natureza, aprendendo sempre com o vento, a água, o céu, e o barco que se torna parte de nós. E, neste mundo mágico fazemos grandes amizades, e aprendemos a valorizar mais ainda o prazer de velejar em família. Trazer nossos filhos para esse maravilhoso mundo náutico é uma enorme felicidade.

Tenho iniciado muitos alunos e casais na Arte de a Vela Oceânica, ou Vela de Cruzeiro no Lago Paranoá de Brasília, e é sempre muito gratificante quando vejo a felicidade estampada no rosto de meus alunos por estarem descobrindo um mundo fascinante. Então, recentemente lancei uma campanha para incentivar mais ainda a Vela em Família, para que os Pais tragam seus filhos para aprenderem juntos, fortalecendo assim os laços de família através da arte de velejar. Nessa campanha os filhos até 18 anos não pagam para fazer aula junto com os Pais que estiverem fazendo o curso de vela.

No curso de vela a bordo do Veleiro Mucuripe, os alunos aprendem todas as manobras feitas em um veleiro oceânico, trabalhando com as duas velas, genoa e mestra, em todos os tipos de vento. Aprendem também técnica de fundeio, atracação, uso de motor de popa e nós utilizados em marinharia. O curso é livre, ou seja, os alunos fazem quantas aulas acharem necessário para se sentirem seguros para navegarem sozinhos, sendo que em média são suficientes 05 aulas para quem nunca velejou. As aulas são agendadas conforme disponibilidade de horários e das condições meteorológicas.

Aulas individuais de 1h30m   = R$ 90,00

Aulas para casais de 1h30m  = R$ 120,00

 

Acesse nossa página no facebook e veja vídeos e fotos de alunos: Curso de Vela em Brasília

 

 

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O prazer de ensinar a Arte de Velejar

Publicado por Elson - Mucuripe em 13/12/2016 às 09h24

Iniciei na vela sem saber que seria um apaixonado por essa Arte. Isso foi em 2008, quando embarquei pela primeira vez em um veleiro, e por coincidência o comprei anos mais tarde depois de ter um dingue e em seguida um cabinado de 18 pés, e hoje, o Mucuripe, um oday de 23 pés. E, em 2012 comecei a dar algumas aulas, uma atividade que sempre gostei desde o tempo em que lecionava violão, e porque me ajudaria a pagar as despesas com o barco. Com o tempo, criei uma página no facebook para divulgar, além do site, e essa atividade se tornou parte do meu dia a dia. A grande maioria dos alunos jamais havia subido a bordo de um veleiro, e todos ficam fascinados quando começam a sentir o barco deslizando na água pela força do vento. Esse encantamento arrebata a todos, e como dizem, é um vício que se inicia e não tem mais como largar.

Muitos casais encontram na vela um novo sentido para a vida a dois, e passam a viver em função dessa Arte. Velejar requer paciência e dedicação, e muito respeito às forças da natureza. Nos proporciona momentos de reflexão e meditação, e nos dá força e coragem para lidar com os desafios, e resignação para aceitarmos nossa pequenez. Nos faz enxergar a natureza de outra forma, e percebermos o quanto somos presenteados todos os dias por sua beleza. O aprendizado da Vela é constante, e isso é que nos motiva cada vez mais a continuar a aprendendo e ensinando o pouco que sabe para os novos velejadores.

Neste ano tive a felicidade de poder compartilhar desse sentimento com vários alunos, e tive a honra de poder ajudá-los a descobrirem esse magnífico mundo da Vela. Uma das maiores realizações é quando vejo que o aluno já está seguro e com condições de sair velejando sozinho seu próprio barco, como o Israel da foto abaixo.

Agradeço a todos meus alunos e amigos(as), e desejo muitos Bons Ventos em 2017!!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Categoria: vela
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Enxu Queimado e o Retratista

Publicado por Elson - Mucuripe em 30/10/2016 às 20h03

Enxu Queimado é assim...
O tempo parou por aqui. O parque eólico chegou pelas vizinhanças, mas não tirou o sossego, a vida segue pacata, arrastada pelo vento forte que agita os paquetes no Mar de Enxu. "Nessa cidade todo mundo é..." de Enxu. Todo mundo é daqui, mesmo que não tenha nascido por essas bandas, mas quem tá aqui é porque é daqui, o lugar escolheu, a vila acolheu. As portas estão sempre abertas, a conversa é sempre boa, os causos contados no alpendre são reais, tanto faz os da casa de Nelson ou de Pedrim, ou de Manoel, os causos são de verdade, e a conversa não tem fim, só termina quando os olhos miúdos de sono se fecham a sonhar.
O Nelson tá sempre ali escrevendo as Cartas de Enxu pro Tonho, assunto não falta, se falta, arruma mais. O violão tá sempre ali, ou descansando, ou nas mãos de quem se atreve. E as canções são sempre praieiras, pois o Mar de Enxu se junta com o coqueiral e dá o tom pro violeiro que se inspira e não pára de tocar, até que os olhos míúdos de sono se fecham a sonhar.
O retratista de Enxu caminha pela praia, corre os olhos no Mar, pensa e repensa, bate um retrato e volta a caminhar. Sabe lá o que pensa, mas se sabe o que vê. Enxu Queimado o escolheu pra ficar por ali a divagar, no aconchego do colo de sua doce amada, até que seus olhos miúdos de sono se fechem a sonhar...

 

 

Categoria: coisas do Mar
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NAVEGAÇÃO: A CIÊNCIA E A ARTE , Um livro indispensável

Publicado em 15/09/2016 às 15h30

Acesse aqui ao livro do cmte Miguens, Navegação: A Ciência e a Arte, um manual de navegação editado em 03 volumes, disponibilizado no site da marinha.

Esse livro aborda todas as áreas de importância para o navegante. É um manual completo com a compilação de vários outros trabalhos na área da navegação.

Indispensável aos que querem se aprofundar nos conhecimentos de Navegação Costeira e Navegação Astronômica.

https://www.mar.mil.br/dhn/dhn/quadros/publicacoes.html

https://www.mar.mil.br/dhn/dhn/quadros/livro_um.html

https://www.mar.mil.br/dhn/dhn/quadros/livro_dois.html

https://www.mar.mil.br/dhn/dhn/quadros/livro_tres.html

 

                                                                APRESENTAÇÃO DO MIGUENS VOLUME I

Há muito que a nossa Marinha ressente-se da falta de um Manual de Navegação, para uso a bordo dos nossos navios, nos órgãos de ensino e adestramento e, também, para atender ao público externo, isto é, aos navegantes da nossa Marinha Mercante, de Longo Curso, Cabotagem e de Apoio Marítimo, e aos navegantes de pesca, esporte e recreio, que, cada vez mais, buscam na MB fontes de consulta sobre navegação.

Depois do livro do Comandante Evandro Santos, "Navegação Estimada" (1924) e dos trabalhos posteriores do Almirante Guilhobel (1930) e do Comandante Newton Tornaghi (1945). Pouco se editou sobre navegação em nossa Marinha.

Na Escola Naval, os instrutores que se sucederam prepararam várias apostilas, quase sempre de conteúdo muito bom, porém com uma notória deficiência de forma, de apresentação gráfica e com todos os inconvenientes que apresentam as publicações avulsas.

No final da década de 60 e início da década de 70, as folhas de informações sobre navegação astronômica foram consolidadas no livro "Navegação Astronômica", editado conjuntamente pela Escola Naval e DPC. Posteriormente, a própria EN publicou, em edições provisórias, os trabalhos NAV-1 e NAV-2, de autoria do CMG(RRm) Renato Tarquínio Bittencourt abrangendo, respectivamente, os conceitos básicos de navegação e navegação costeira, estimada e em águas restritas. Para navegação eletrônica (NAV-3), em 1983 foi obtida autorização para reproduzir um trecho do livro "A Prática da Navegação", do CLC Carlos R. Caminha Gomes, publicado pelo Sindicato de Oficiais de Náutica da Marinha Mercante. Entretanto, permaneceram as deficiências de impressão, de falta de unidade, de padronização e de coordenação entre os trabalhos supracitados. Além disso, tais trabalhos dificilmente são acessíveis ao público externo.

Todos estes fatores levaram ao consenso de que se fazia necessário para a Marinha dispor de um "Manual de Navegação", a exemplo do que fizeram outras nações, de igual ou menor porte que a nossa.

A Organização Hidrográfica Internacional (OHI) recomenda que os Serviços Hidrográficos dos Estados-membros publiquem Manuais Nacionais de Navegação, como mais uma medida para aumento da segurança da navegação. Ademais, o Regulamento da Diretoria de Hidrografia e Navegação prevê que cabem à DHN as tarefas de estabelecer normas e procedimentos para a navegação e produzir informações de interesse para a segurança da navegação. Assim sendo, não restam dúvidas de que a responsabilidade pela publicação do Manual de Navegação, no âmbito da MB, é da Diretoria de Hidrografia e Navegação.

Desta forma, submeti ao Diretor de Hidrografia e Navegação, em junho de 1993, a idéia de a DHN publicar um Manual de Navegação, que me propus a organizar. O Manual consistiria, basicamente, na compilação dos trabalhos anteriormente mencionados, atualizados e enriquecidos com elementos obtidos das últimas edições das melhores obras disponíveis, como o AMERICAN PRACTICAL NAVIGATOR (BOWDITCH), o DUTTON'S NAVIGATION AND PILOTING, o ADMIRALTY MANUAL OF NAVIGATION, o MANUAL DE NAVEGAÇÃO DO INSTITUTO HIDROGRÁFICO DE PORTUGAL, o COURS D'ASTRONOMIE-NAVIGATION DE L'ÉCOLE NAVALE e o MANUAL DE NAVEGACIÓN DEL INSTITUTO HIDROGRÁFICO DE LA ARMADA DE CHILE, além de outros compêndios e publicações, alguns já editados pela própria DHN.

A forma proposta para o livro foi a de um Manual, isto é, uma obra contendo apenas as noções essenciais acerca dos assuntos, sem profundas considerações teóricas. Ademais, pretende-se que o Manual seja, tal como o BOWDITCH, um "epítome da navegação", ou seja, um resumo da doutrina e do saber acumulado de navegação na nossa Marinha.

A estrutura proposta para o Manual de Navegação divide-o em dois volumes, publicados sob o título de NAVEGAÇÃO: A CIÊNCIA E A ARTE, sendo:
VOL. I : NAVEGAÇÃO COSTEIRA, ESTIMADA E EM ÁGUAS RESTRITAS;
VOL. II: NAVEGAÇÃO ASTRONÔMICA, ELETRÔNICA E EM CONDIÇÕES ESPECIAIS (NAVEGAÇÃO FLUVIAL, NAVEGAÇÃO EM ÁREAS POLARES, NAVEGAÇÃO COM MAU TEMPO E NAVEGAÇÃO EM BALSAS SALVA-VIDAS), DERROTAS, NOÇÕES DE METEOROLOGIA E OCEANOGRAFIA PARA NAVEGANTES.

Espero que o 1º volume do Manual, ora editado, cobrindo as áreas de navegação costeira, estimada e em águas restritas, já possa ajudar os nossos navegantes, civis e militares, a condizerem com segurança seus navios e embarcações, desde o ponto de partida até o destino. O 2º volume, a ser em breve publicado, completará a estrutura deste que pretende ser, tal como os nossos faróis, cartas e publicações náuticas, um auxílio à navegação preciso e confiável. Agradeço a todos que contribuíram para tornar esta obra uma realidade.


ALTINEU PIRES MIGUENS


INTRODUÇÃO AO VOLUME II

A estrutura inicialmente proposta para a obra NAVEGAÇÃO: A CIÊNCIA E A ARTE dividia o trabalho em dois volumes, dos quais o primeiro, cobrindo as áreas de NAVEGAÇÃO COSTEIRA, ESTIMADA E EM ÁGUAS RESTRITAS, foi publicado em 1996.

No entanto, para atender a necessidades didáticas da Escola Naval e, também, para permitir melhor distribuição dos assuntos, a Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) decidiu reestruturar este Manual de Navegação, publicando-o em três volumes. O Volume II - NAVEGAÇÃO ASTRONÔMICA E DERROTAS, ora editado, cobre as áreas de astronomia náutica e navegação astronômica, além do estudo de derrotas loxodrômicas, ortodrômicas e mistas (compostas). O Volume III - NAVEGAÇÃO ELETRÔNICA, NAVEGAÇÃO FLUVIAL, NAVEGAÇÃO POLAR, NAVEGAÇÃO COM MAU TEMPO E EM BALSAS SALVA-VIDAS, E NOÇÕES DE METEOROLOGIA PARA NAVEGANTES já está com todos seus originais em fase de editoração da DHN.

Este, como não poderia deixar de ser, em se tratando de um Manual de Navegação, é apenas um trabalho de compilação, organização, sistematização e atualização de informações. Na sua preparação foram consultadas as últimas edições das melhores obras disponíveis sobre o assunto, todas mencionadas na Bibliografia incluída ao final do volume. Entre as fonte utilizadas, merecem menção especial o "American Practical Navigator (Bowditch), o Dutton's Navigation and Piloting, o Admiralty Manual of Navigation, o Manual de Navegação do Instituto Hidrográfico de Portugal, o Cours d' Astronomie-Navigation de l' École Navale (França), o compêndio "A Prática da Navegação", do CLC Carlos R. Caminha Gomes, e , sobretudo, o livro "Navegação Astronômica", publicado pela Escola Naval e Diretoria de Portos e Costas, cuja primeira edição, ainda provisória, veio a lume nos meus tempos de aspirante. no final da década de 60.

A forma adotada para os capítulos deste livro foi recomendada pelo Vice-Almirante Marcos Augusto Leal de Azevedo, que, quando Comandante da Escola Naval, sugeriu-me que deixasse no corpo dos capítulos apenas os conhecimentos essenciais para a prática da navegação. Na Navegação Astronômica, por exemplo, isto significa que o corpo dos capítulos contém apenas as consideraçõea teóricas indispensáveis para que os estudantes sejam capazes de realizar observações astronômicas, efetuar cálculos pertinentes, plotar as retas de altura ( se for o caso) e determinar a posição do navio, ou o desvio da agulha, e para que saibam o que estão fazendo. Os conhecimentos complementares da cada assunto, que, embora não sendo indispensáveis na prática, devem ficar registrados em uma obra que almeja ser um "epítome da navegação" na MB, foram inseridos como apêndices aos capítulos.

Por último, umas poucas palavras sobre o assunto deste volume. Carleton Mitchell, em sua obra "Passage East", referindo-se especificamente à Navegação Astronômica, afirmou: "No aspect of the sailor's world is more mysterious to the landsman than the practice of (celestial) navigation. To find a precise point in the trackless waste seems neither art nor science, but magic". De fato, as observações com o sextante, os cálculos náuticos, as plotagens das linhas de posição e a determinação do ponto no mar sempre exerceram um fascínio incontestável. Este Manual pretende mostrar que, mesmos em uma época em que maravilhas eletrônicas são oferecidas ao navegante, que pode dispor da "push-button navigation" por um preço convidativo, ainda vale a pena estudar os métodos tradicionais de conduzir com segurança de um lugar a outro da superfície da Terra. Agredeço especialmente ao Comandante Hamilton O' Dwyer, meticuloso revisor, bem como aos demais oficiais, praças e funcioários civis da DHN, que contribuíram para tornar este livro uma realidade.

"NAVIGARE NECESSE EST, VIVERE NON EST NECESSE"

ALTINEU PIRES MIGUENS


Com o VOLUME III – NAVEGAÇÃO ELETRÔNICA E EM CONDIÇÕES ESPECIAIS fica concluída a obra NAVEGAÇÃO: A CIÊNCIA E A ARTE, cuja publicação foi iniciada em 1996, com o VOLUME I – NAVEGAÇÃO COSTEIRA, ESTIMADA E EM ÁGUAS RESTRITAS, e posteriormente complementada, em 1999, com o VOLUME II – NAVEGAÇÃO ASTRONÔMICA E DERROTAS. Os três volumes, em conjunto, foram aprovados pela Diretoria de Hidrografia e Navegação para uso como Manual de Navegação oficial da nossa Marinha, o que muito nos honra.

Tal como os volumes anteriores, este, como não poderia deixar de ser, em se tratando de um Manual de Navegação, é apenas um trabalho de compilação, organização, sistematização e a tualização de informações. Na sua preparação foram consultadas as últimas edições das melhores obras disponíveis sobre o assunto, todas relacionadas na Bibliografia incluída ao final do volume. Da mesma forma que nos outros tomos, as referências básicas foram o “American Practical Navigator (Bowditch)”, o “Dutton’s Navigation and Piloting”, o “Admiralty Manual of Navigation”, o “Manual de Navegação (Cálculos Náuticos)”, do Instituto Hidrográfico de Portugal, o “Cours d’Astronomie-Navigation de l’École Navale” (França) e o “Manual de Navegación del Instituto Hidrográfico de la Armada de Chile”. Entre as demais fontes empregadas neste volume merecem menção especial o compêndio “A Prática da Navegação”, do Capitão-de-Longo-Curso Carlos R. Caminha Gomes (cujo uso pela MB foi autorizado pelo Ofício nº 119/83 do Sindicato Nacional dos Oficiais de Náutica da Marinha Mercante), utilizado como base para os capítulos iniciais (34 a 36); o livro “Rios da Amazônia: Coletânea de Dados – Pequeno Roteiro”, do Comandante Leonardo Trisciuzzi Neto e o texto “Navegabilidade dos Rios”, do Dr. Afonso Henrique Furtado Portugal (referências para o Capítulo 40); o roteiro britânico “The Antarctic Pilot” e o livro “Polar Operations”, do Comandante Edwin Mac Donald (Capítulo 41); e o “Manual de Meteorologia de Passadiço”, da DHN (Capítulo 45).

A forma adotada para apresentação do conteúdo deste volume foi recomendada pelo Almirante-de-Esquadra Marcos Augusto Leal de Azevedo, que, quando Comandante da Escola Naval, sugeriu-me que, ao preparar o Manual, deixasse no corpo dos capítulos apenas os conhecimentos essenciais para a prática da navegação. Os conhecimentos complementares de cada assunto, que, embora não sendo indispensáveis na prática, devem ficar registrados em uma obra que almeja ser “um epítome da navegação na MB”, foram inseridos como apêndices aos respectivos capítulos. Isto inclui, por exemplo, sistemas de navegação hoje descontinuados, como o Omega e o TRANSIT (“Navy Navigation Satellite System”), mas que constituíram etapas importantes na busca de uma solução para o problema de determinação contínua da posição no mar, em qualquer lugar e sob quaisquer condições de tempo, e a descrição do GMDSS (“Global Maritime Distress and Safety System”), que não trata especificamente da ciência e da arte da navegação, mas cujo conhecimento é relevante para todos os navegantes.

Ainda umas poucas palavras sobre os assuntos cobertos neste volume. Os capítulos iniciais (34 a 38) tratam da navegação eletrônica, incluindo noções básicas sobre geração, transmissão, propagação e recepção de ondas eletromagnéticas e acústicas; radiogonometria; sistemas hiperbólicos de navegação; navegação por satélites (“Global Positioning System”- GPS); navegação batimétrica, inercial e “Doppler”. O Capítulo 39 – A Prática da Navegação é uma síntese dos capítulos anteriores, tanto deste como dos demais volumes do Manual; inclui, também, as Normas para a Navegação dos Navios da MB, cuja 3ª Edição (1996) foi revista por este autor.

A segunda parte aborda a navegação em condições especiais; o Capítulo 40 estuda a navegação fluvial, de imensa importância para o Brasil e, em especial, para a MB, mas sobre a qual pouco se escreveu até hoje. O Capítulo 41 descreve os métodos e técnicas específicos e as precauções de segurança para navegação em áreas polares, com ênfase na Antártica, assunto de evidente relevância para a nossa Marinha e para o país. Os capítulos que se seguem (42 e 43) tratam da navegação em condições extremas (navegação com mau tempo e navegação em balsas salva-vidas), apresentando informações que todo navegante prudente deve conhecer. O Capítulo 44, que ousei incluir no livro por sugestão do Vice-Almirante Fernando Mendonça da Costa Freitas, que nos honrou escrevendo o Prefácio desta obra, fornece algumas noções sobre navegação de submarinos.

Finalmente, o Capítulo 45 apresenta noções de meteorologia para navegantes. Os anexos e apêndices (que devem ser entendidos como pertinentes a todo o Manual, e não apenas ao Volume III) incluem tábuas, tabelas, ábacos, gráficos e informações úteis ao navegante, um Almanaque Permanente (“Long-Term Almanac”), noções de inglês técnico-marítimo (nas áreas de navegação, marinharia e manobras) e instruções para realização de um levantamento hidrográfico expedito.

Agradeço a todos que contribuíram para tornar esta obra uma realidade, em especial aos oficiais, praças e funcionários civis da DHN que nela trabalharam com entusiasmo e proficiência. Espero que Navegação: a Ciência e a Arte seja, tal como os nossos faróis, radiofaróis, bóias, cartas e publicações náuticas, um auxílio à navegação preciso e confiável, que possa ajudar os nossos navegantes, civis e militares, a conduzirem com segurança seus navios e embarcações, desde o ponto de partida até o destino.

"NAVIGARE NECESSE EST, VIVERE NON EST NECESSE"

ALTINEU PIRES MIGUENS

PREFÁCIO DO VOLUME I

Há uma passagem no Livro de Isaías, em que o profeta faz referência ao povo que habita uma terra onde há o roçar de muitas asas de insetos, que está muito além dos rios da Etiópia e "que envia embaixadores por mar navegando em navios de papiro".

* Este pode ser o registro mais remoto de viagem do homem pelo mar; provavelmente ocorreu há uns cinco mil anos. Até hoje historiadores discutem, sem concordar, sobre a época da la edição da Bíblia. De qualquer modo, este parece ser, pelo menos, o primeiro relato de navegação que conhecemos, porque o homem mal havia começado a aprender a linguagem escrita. Não há dúvidas de que ele vinha viajando pelos mares, muito antes disso.

A história das viagens do homem pelo mar é realmente muito antiga. O tema em si não se inclui no escopo deste livro e tem sido objeto de muitas obras. Mas a evolução do ensino de navegação é, obviamente, parte da história da navegação marítima.

Durante milênios, a aquisição de conhecimentos sobre técnicas de navegação foi exclusivamente um processo penoso. Era fruto de uma lenta acumulação de experiências em viagens e de muito sofrimento. Como disse o avô de Nimitz, quando o neto resolveu ingressar na Marinha: "O mar - como a vida ela própria - é um mestre-escola rigoroso. A melhor maneira de conviver com ele é aprender tudo que você pode; depois, dar o máximo de si e não se preocupar, especialmente com as coisas sobre as quais você não tem controle".

Há um fato que os historiadores consideram um dos grandes marcos na evolução na história da humanidade: foi o primero grande esforço do homem para sistematizar, de forma organizada e científica, a aquisição de conhecimentos sobre a arte de navegar.

No correr da primeira metade do Século XV, uma idéia tomava forma na mente de um jovem príncipe, Infante de Portugal, terceiro filho do rei D. João I. Ele entrou para a história como Henrique, o Navegante.

Depois de participar com distinção na guerra de conquista de Ceuta e, poucos anos mais tarde, livrar essa cidade de outra investida dos mouros, Henrique voltou a Portugal. Recusou a dignidade de grão-mestre da Ordem de Cristo. A honraria vinha acompanhada do voto de pobreza, que, por sua vez, significava abrir mão de sua renda. Preferiu aceitar o cargo de Governador e Administrador da Ordem . Construiu uma vila na Ponta de Sagres, na província meridional do Algarve, perto do Cabo de São Vicente, e pôs-se a refletir sobre sua época. Tinha 25 anos, curiosidade científica e uma aguda percepção dos fatos em sua volta.

Antes de Henrique, o Navegante, geógrafos e navegantes da Europa vinham procurando um caminho marítimo para o Oriente. Henrique não gastou muito tempo apenas refletindo. Construiu estaleiros, um arsenal de marinha, um observatório e reuniu em torno de si alguns dos mais notáveis cartógrafos, astrônomos e navegadores da época.

Dois anos depois de fundado esse conjunto, que ficou conhecido como Escola de Sagres, os portugueses descobriram a ilha de Porto Santo e, a seguir, Madeira, Açores, Rio de Ouro, Serra Leoa, Gâmbia e o Arquipélago de Cabo Verde. Quando Henrique faleceu em l460, os portugueses haviam chegado ao Cabo de Palmas. Estava aberto o amplo caminho para expandir-se a civilização do Ocidente.

Os portugueses prosseguiram em sua exploração para o Sul da costa atlântica da África Bartolomeu Dias contornou o Cabo das Tormentas, depois rebatizado de Boa Esperança, e Vasco da Gama fundeou em Calicut em l498.

Segundo a tradição, Vasco da Gama e Colombo formaram-se em Sagres. Mas o fato é que Cristóvão Colombo, um genovês, casou com a filha de um ex-marinheiro, Bartolomeu Perestello, que havia navegado para o Infante Henrique nas viagens de exploração da costa africana. Colombo estudou papéis, registros, roteiros e cartas náuticas de seu sogro e, a serviço da Espanha, descobriu um novo continente.

Diz Churchill que a velha ordem política, econômica e social da Europa foi abalada em suas bases. Embora pareça uma surpreendente ocorrência no século XVI, o principal flagelo foi uma desenfreada inflação. Era uma insaciável fome por dinheiro para custear viagens, novos empreendimentos, construções e novos métodos de governar. Os Estados tinham agora braços estendidos por cima dos oceanos.

Mas, da mesma forma que acontece em nossos dias, a gestão de finanças era uma tarefa apenas vagamente compreendida por governantes e pela maioria das pessoas. O caminho mais fácil, adotado pelos reis empobrecidos - como alguns governantes de hoje - consistiu em degradar suas moedas.

Entretanto, havia um novo e rico mundo a explorar e disso entendiam os comerciantes. Mais ainda, na medida em que as novas terras iam sendo ocupadas, o solo mostrava-se fértil para germinar sementes de liberdade econômica e política das futuras gerações.

Henrique, o Navegante, ao estabelecer o primeiro esforço organizado em bases científicas e práticas para o ennsino da navegação, detonou a expansão marítima dos povos da Europa. A civilização ocidental, pela primeira vez na História, derramou-se para o sul e para oeste, transpondo o oceano. Foi uma formidável transformação.

Nós, marinheiros brasileiros, temos uma dívida antiga com nosso genial antepassado português, Henrique, o Navegante. Até hoje não tínhamos em nosso País um compêndio consolidando as experiências atualizadas da Arte de Navegar.

Tenho motivos para acreditar que o excelente Manual de Navegação, elaborado pelo Comandante Altineu Pires Miguens - cujo primeiro volume "Navegação Costeira, Estimada e em Águas Restritas", ora é editado - constitui uma substancial amortização da dívida. Os muitos de seus usuários vão conferir o fato, confirmá-lo e, certamente, contribuir para aperfeiçoar novas edições. A vida é "quem" decide.

A segunda parcela do pagamento da dívida - o Volume II - "Navegação Astronômica, Eletrônica e em Condições Especiais (Navegação Fluvial, Navegação Polar, Navegação com Mau Tempo e em Embarcações de Salvamento)"- virá em breve.

FERNANDO M. C. FREITAS
Vice-Almirante
Presidente da Fundação de Estudos do Mar

Categoria: Navegação - livros
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Estórias de um Pescador - Mestre Lídio

Publicado em 08/09/2016 às 19h05

Mestre Lídio, nascido e criado na Barra do Paraguaçu, Baía de Todos os Santos. Filho do Mestre Veríssimo, Carpinteiro Naval, construtor de muitos barcos e Saveiros que navegaram e continuam a navegar na Bahia. A história da Baía passou por suas mãos e por seus olhos atentos. Mestre Lídio comandou o Ferry Boat até seus 82 anos. Hoje, com seus 85 anos e muita lucidez, tem muita história pra contar.  Ele me contou algumas de suas lembranças ainda muito vivas em sua memória, mesmo tendo se passado 60 anos, os detalhes ainda povoam sua mente com a emoção do momento.
Uma de suas primeiras estórias foi a pescaria de um Mero de 85 kg a bordo de sua canoa de vela. Na ocasião estava Ele e sua esposa, Tia Lau, hoje com 82 anos, sua alma gêmea, casados há mais de 60 anos, estavam na canoa, precisando pescar um bom peixe para garantir o sustento da família, quando perceberam a fisgada do peixe que logo começara a luta pela sobrevivência. Nessa hora, a habilidade do pescador é determinante. Mestre Lídio conseguiu domar o peixe e trazê-lo a contrabordo da canoa, pois o peso era muito para que os dois conseguissem colocá-lo na canoa. Então, o levaram amarrado a contrabordo da canoa até o Porto da Barra do Paraguaçu.
E eu pensei que esse havia sido seu maior peixe, mas não, houve um Mero bem maior, e essa pescaria foi premeditada em sonho. Mestre Lídio me contou que dias antes havia sonhado que um amigo tinha lhe dito que havia perdido um grande peixe próximo à Pedra Mole, e lhe indicou o lugar. E, num belo dia, estava indo sozinho pescar na Pedra Mole, quando um conhecido pediu para ir junto, esse não era pescador experiente. Mestre Lídio resolveu ir no lugar onde sonhara e lá lançou a isca, quando em pouco tempo o peixe mordeu a isca para começar a batalha. Essa é uma batalha onde impera o respeito, pois Pescador e Peixe lutam pela sobrevivência com dignidade. E, o peixe logo cansou, Mestre Lídio o trouxe para o bordo da canoa que por muitas vezes esteve prestes a virar com os golpes do peixe. Esse era um imenso Mero de 170 kg. Mestre Lídio e seu amigo tiveram que descer da canoa e ir puxando-a pela margem do Rio com o peixe amarrado a contrabordo até chegar na Barra.
Mas, a estória mais impressionante estava por vir, e essa aconteceu há exatamente 60 anos, também no Rio Paraguaçu, quando um pescador solitário de São Roque do Paraguaçu teve sua canoa puxada por um enorme peixe desconhecido, e foi sendo arrastado rio abaixo, e ao chegar próximo à Barra do Paraguaçu, começou a acenar com o chapéu para os pescadores da Barra, onde estava o Mestre Lídio. E começou a juntar pescador para ajudar, e foram em oito canoas munidos de arpões, e tudo o mais que podiam usar para um grande peixe. E foram sendo levados até a Ilha do Medo onde o peixe descomunal sucumbiu depois de um dia inteiro de luta. Das oito canoas, só ficaram três até o fim da batalha. E Mestre Lídio teve que ir rebocá-los, trazendo o imenso peixe. Tratava-se de uma Jamanta de 1200 kg, nunca haviam encontrado uma tão grande por aquelas águas. Essa ficou para a história dos pescadores da Barra do Paraguaçu. Mestre Lídio é o único daquela turma toda de pescadores de 60 anos atrás. Traz consigo todas as estórias vividas num tempo longínquo nesse Mar abençoado da Baía de Todos os Santos, especialmente na Barra do Paraguaçu.

Tenho muito orgulho em dizer que Mestre Lídio é meu Padrinho do Mar!

Barra do Paraguaçu

Juntos há mais de 60 anos

Pescadores da Barra do Paraguaçu

 

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A volta ao mundo no Guruçá Cat

Publicado por Elson - Mucuripe em 04/08/2016 às 23h35

A vida é mesmo feita de sonhos, e estes são para ser vividos. Soltar as amarras em busca de um grande sonho é para muitos um ato de loucura, mas para os corajosos é um ato de pura sanidade. Guta e Fausto não mediram esforços, se entregaram de corpo e alma e realizaram muitos desses loucos sonhos, e nessa magnífica loucura dos bravos velejadores, soltaram as amarras e abriram os panos para uma pequena volta ao mundo de quase quatro anos a bordo de sua casa-barco, o belíssimo Guruçá Cat.
Guta e Fausto, muito obrigado por compartilhar esse belo sonho!
 
Entrevistando Guta Favarato

-Há quanto tempo moram a bordo?
Fausto há 28 anos e eu, Guta, há 14 anos na vida náutica. Variou entre morarmos a bordo e o tempo em terra construindo os barcos.


-Sempre tiveram o sonho de dar a volta ao mundo num veleiro? Como e quando ocorreu essa idéia?
Essa idéia surgiu quando começamos a acompanhar outros velejadores viajando pelo mundo.  Nossa idéia era trabalhar a bordo e vivermos na costa brasileira, mas depois com os relatos e fotos de viajantes,  a vontade ficou cada vez maior.


-O que levou vocês a construírem um veleiro para poder colocar esse plano em ação?
Já morávamos em um catamarã 62' projetado e construído pelo Fausto para morarmos a bordo e fazermos charter pela costa brasileira.
Foi um barco projetado para charter, era muito grande para uma volta ao mundo.  Então,  decidimos vender e construir outro projeto de Fausto, o atual Guruçá Cat de 54 ' ideal para longas viagens.


-Como foi construir o novo catamaran? O nome é o mesmo do primeiro?
Foram três anos e três meses trabalhando de 6 da manhã até as 19 da noite todos os dias da semana. Somente nós dois construindo.  O primeiro barco de Fausto se chamava Guruçá (o apelido dele na infância),  hoje se chama Utopia.
O Cat Guruçá e o atual Guruçá Cat.  Cat de catamarã.  Não é lá muito criativo,  mas gostamos do nome e não queríamos colocar em sequência,  tipo: Guruçá 2, 3...


-Qual a rota planejada para a circunavegação? Vocês planejaram detalhadamente todo o percurso?
Não planejarmos detalhadamente e na viagem descobrimos que não adiantava planejar.  São muitos fatores que acontecem durante a viagem que te faz mudar de idéia.  O que faz tudo ficar muito mais interessante.


-E quanto a reabastecimento de alimentos e combustível no percurso?
Abastecimento de alimentos fiz a grande parte na cidade do Panamá onde tem excelentes supermercados com ótimos preços. Compramos quase 4 mil dólares em comida (massas,  enlatados etc...)  guardei a maioria dos produtos em embalagem a vácuo e tenho a bordo até hoje... Não estraga com umidade,  não dá broca.  Foi um ótimo investimento (maquininha de vácuo).
Abastecer de água,  apesar de termos o dessalinizador,  o que mais usamos foi captar água da chuva. Diesel é complicado na maioria dos países porque não tem postos de combustível náutico como estamos acostumados na nossa costa. Temos que carregar em bombonas,  um trabalho de formiguinha que é muito cansativo.  Para nós que temos 1200 litros de armazenamento,  haja coluna! Rsrsrs


-Quais os equipamentos utilizados na navegação? Utilizaram navegação astronômica também?
Radar,  AIS,  piloto automático,  VHF,  2 chartetplotters,  IPad com o programa de navegação NAVIONICS foi o que mais usamos. Não usamos navegação astronômica.  Amém rsrsrsrs
-Que documentação tiveram que providenciar para sair do Brasil?
Só demos a saída da capitania dos portos para termos um documento de entrada no nosso primeiro porto internacional, que no caso foi Tobago,  no Caribe..


-É necessária permissão para fundear em águas internacionais? ou somente no caso de desembarque?
Em todos os países que chegamos,  temos que fazer os papéis de entrada, pedir autorização para permanecermos, mesmo que só fundeados.  As autorizações (vistos) podem variar de 3 meses há 6 meses. Alguns países renovam esses vistos e outros não.  Em alguns países como Galápagos (pertence ao Equador),  e a Indonésia, tivemos que pedir a autorização de entrada antes de chegarmos.. Essas informações se encontram em guias e sites náuticos.


-Quanto ao planejamento meteorológico, como faziam no decorrer do percurso e nas grandes travessias?
Não tínhamos um telefone via satélite ou outra forma de baixarmos a previsão do tempo em alto mar. Fazíamos a previsão na saída,  mas pela nossa experiência,  só é confiável por três dias, então saíamos preparados para o que viesse! Fausto é muito bom em metereologia e sabia identificar quando a coisa iria ficar brava. Rsrsrs


-Em algum momento pensaram em desistir do plano e regressar de onde estavam?
Nunca pensamos em desistir.


-Quanto tempo durou toda a viagem? Ficou próximo do planejado?
A viagem durou o tempo que a grana durou,  rsrsrs,  quase 4 anos.


-Vocês trabalharam com charter em alguma fase da viagem?
Sim,  recebemos brasileiros para charter durante a viagem e também trabalhamos na Malásia.


-Tiveram alguma situação de dificuldades na navegação? Pegaram algum mar bravo?
Passamos por um sufoco com a formação de um tufão na Micronésia,  que desviou da rota. A rota seria passar em cima de nós (estávamos fundeados em um atol na Micronésia). "Mar bravo"  pode ter vários significados. Para mim é quando as ondas são grandes e desencontradas,  atrapalhando muito o barco desenvolver velocidade e velejar. A travessia do Pacífico foi assim. Ondas grandes,  desencontradas e pouco vento. Foram 22 dias super cansativos.


-Encontraram mais velejadores realizando uma volta ao mundo?
Tem muitos velejadores fazendo a volta ao mundo.  Famílias com até 6 filhos,  casais jovens,  casais de idade.. A maioria dos veleiros bem equipados e na faixa dos 40' 45'. É  raro ver veleiros menores e não equipados fazendo a volta ao mundo.

-Planejam uma nova volta ao mundo?
Outra volta ao mundo acho que não,  mas a rota do Atlântico e mediterrâneo daqui há uns anos quem sabe!?


-Enquanto não decidem partir novamente, quais os planos de vida e navegação no Brasil?
Agora voltamos a trabalhar com charter aqui em Angra /Paraty até o verão e depois subiremos a costa recebendo tripulantes e participaremos da REFENO 2017 também com vagas para tripulantes. Continuaremos vivendo a bordo e trabalhando até vendermos o barco. Nosso plano é passar um tempo em terra construindo o novo projeto de Fausto. Um catamarã de 57' ainda mais bonito que o Guruçá Cat rsrsrsrsrs


-Como se sentiram ao final da viagem?
Como se tivéssemos ganhado uma medalha de ouro!  E o que mais desejamos e que todos ganhem sua medalha de ouro naquilo que eles sonhem.

É isso aí...Bons Ventos ao Guruçá Cat!!!

Acesse o site e viaje no Guruçá: http://www.gurucacat.com.br/

Categoria: viver a bordo
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Velho Marinheiro safo

Publicado por Elson - Mucuripe em 11/07/2016 às 09h05

Safo, uma palavra que tem um significado forte no mundo náutico, que muito provavelmente teve origem com os velhos marinheiros. Um marinheiro safo é aquele que sabe lidar com as situações da vida marinheira de forma sábia, sem embaraços. Isso requer experiência, ninguém é safo da noite pro dia. Pra se tornar um marinheiro safo, nada melhor do que ter um bom mestre.


Manoel Soares da Silva, o Sr. Manoel, "velho" marinheiro do Clube Naval de Brasília. Aos 57 anos orgulha-se da profissão e pretende ser marinheiro até quando a vida permitir. Teve a honra de ter como mestre o saudoso Mestre Fernandes, de quem sempre fala com muito orgulho, com quem aprendeu a Arte da Marinharia. Eu o chamo por Mestre Manoel, pois o considero um mestre na marinharia, um dos poucos que conheço que mantém as tradições da marinharia, coisas que tendem a se perder com o tempo, pois poucos se interessam em manter viva essa Arte.
Mestre Manoel trabalha no naval há 15 anos, é o líder dos marinheiros, sendo admirado por todos pelo seu conhecimento e sua destreza com a marinharia. E ele não guarda para si o conhecimento, ensinando a qualquer pessoa que queira aprender. Herdou o sangue marinheiro de seu Pai, que era pescador e grande mergulhador. Encomendei ao Mestre Manoel uma nova rede para guarda-mancebo do Mucuripe e também uma redinha para colocar coletes salva-vidas embaixo do bimini. Registramos seus trabalhos em fotos e vídeos como forma de manter viva a Arte da Marinharia do Mestre Manoel.

 

 

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A Baía de Todos os Santos é do Avoante

Publicado por Elson - Mucuripe em 07/07/2016 às 22h27

Ele pode até dizer que não é especialista no que diz respeito a conhecer a Baía de Todos os Santos, mas eu digo o contrário, ele conhece a Baía de Todos os Santos como ninguém, e olhe que ele nem é Baiano. Nelson Mattos Filho, Capitão do Avoante, navegou por aquelas águas abençoadas da BTS como ninguém, explorando cada lugarejo, cada cantinho escondido ali a sete chaves. Quem não já navegou pelas águas da Bahia no Diário do Avoante?

O Avoante se tornou patrimônio da Baía de Todos os Santos, e um não vive sem o outro. Há pouco mudou de mãos, o Casal Avoante, Nelson e Lúcia, teve que desembarcar por um breve tempo pra ajeitar umas coisinhas em terra firme. Mas, o Avoante ficou lá onde é seu lugar, embalado pela Dona das águas do Mar da Bahia. Está lá com toda sua história e seus segredos, conhecedor profundo daquelas águas segue seu destino de arribaçã. Nelson e Lúcia foram os escolhidos pelo Avoante para descobrirem todos os encantos da Baía de Todos os Santos, se tornaram filhos do Mar da Bahia.

Se você quer conhecer a Baía de Todos os Santos, leia esse magnífico texto do Capitão Nelson no Diário do Avoante:

https://diariodoavoante.wordpress.com/2016/07/07/o-que-fazer-na-baia-de-todos-os-santos/

Categoria: coisas do Mar
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